A Revolução das Canetas Emagrecedoras
Com o término da patente da semaglutida, principal componente das canetas emagrecedoras, países como Brasil, Índia, China e México vivem uma nova fase na luta contra a obesidade. As canetas, medicamentos que promovem a perda significativa de peso, prometem não apenas transformar a saúde de milhões, mas também impactar a economia global.
Embora tais medicamentos não sejam uma solução definitiva para a obesidade — uma condição crônica influenciada por fatores como alimentação inadequada, estresse e sedentarismo —, a ampliação do acesso a eles pode gerar mudanças profundas. A expectativa é que isso resulte em redução de custos com saúde, menos perdas de produtividade devido a doenças ligadas ao sobrepeso e uma revolução em setores como alimentação e aviação.
Atualmente, os únicos medicamentos com semaglutida disponíveis são o Ozempic e o Wegovy, ambos fabricados pela empresa dinamarquesa Novo Nordisk. Contudo, até o final deste ano, espera-se o lançamento de cerca de cem novos remédios que também incorporarão a semaglutida, embora não sejam necessariamente canetas ou genéricos.
O Potencial de Crescimento do Mercado
De acordo com um estudo realizado pelo J.P. Morgan, em 2026, apenas 7% dos pacientes diabéticos e 2% da população obesa em todo o mundo fazem uso dessas drogas. Entretanto, uma pesquisa publicada na Lancet sugere que 27% da população global poderia se beneficiar desses tratamentos, caso o preço não fosse um empecilho tão grande.
A obesidade é considerada uma das maiores crises de saúde pública, com a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontando que 44% dos adultos no mundo estão com sobrepeso ou obesidade, resultando em cerca de 5 milhões de mortes anuais devido a doenças cardiovasculares. Além disso, esse problema eleva os custos de saúde em até 8,4% na Europa e nos Estados Unidos, prejudicando a produtividade da força de trabalho e projetando um custo equivalente a 3% do PIB global até 2035.
O aumento da obesidade é alarmante, especialmente em países de baixa e média renda, que concentram 70% dos casos. Tanto o Brasil quanto a Índia estão entre as nações mais afetadas. No Brasil, 62,6% dos adultos estão acima do peso, dos quais 25,7% são considerados obesos, de acordo com dados do Vigitel/Ministério da Saúde. Já na Índia, 70% da população, que totaliza 1,4 bilhão, enfrenta problemas relacionados ao peso.
Impactos Econômicos e Previsões Futuras
A Federação Mundial de Obesidade (FMO) ressalta que os custos econômicos globais do sobrepeso e da obesidade devem atingir impressionantes US$ 4,32 trilhões até 2035. Esse montante engloba não apenas os gastos diretos com saúde, mas também os custos indiretos relacionados à perda de produtividade, absenteísmo e mortalidade precoce.
Mais otimista, a consultoria Jefferies sugere que se cada passageiro de uma companhia aérea americana perder cerca de 10 quilos, a economia em combustível pode ultrapassar 100 milhões de litros anualmente. No entanto, a indústria de alimentos pode sentir os efeitos da redução no consumo, prevendo-se uma diminuição de 1,3% na ingestão calórica nos Estados Unidos até 2035.
As expectativas são altas para os novos medicamentos com semaglutida, que devem abarrotar o mercado. No Brasil, 17 laboratórios já solicitaram análise à Anvisa, e as projeções indicam uma queda nos preços que pode variar entre 30% a 40% ainda este ano. Contudo, em grandes produtores como Índia e China, a queda nos preços pode ser ainda mais expressiva, com a China mostrando possibilidade de reduções de até 80%.
Desafios e Oportunidades no Acesso ao Tratamento
Com um número crescente de novas drogas, a expectativa é que milhões de pessoas tenham acesso a esses tratamentos. Contudo, a alta dos custos ainda representa um obstáculo considerável, aumentando a desigualdade no acesso. Mesmo com a possibilidade de redução de preços, muitas pessoas de baixa renda continuarão fora do alcance desses medicamentos.
O hepatologista João Marcello de Araújo Neto, professor da UFRJ, enfatiza que, apesar de ser uma revolução no nível individual, é fundamental que soluções abrangentes sejam implementadas para o combate à obesidade. Ele ressalta que as canetas não devem ser vistas como um tratamento estético, mas sim como uma ferramenta de saúde.
Além disso, iniciativas como a que será oferecida pelo Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE) no Rio de Janeiro, que disponibilizará semaglutida pelo SUS para 150 pacientes, representam um passo positivo. A endocrinologista Lívia Lugarinho acredita que esses tratamentos têm potencial transformador para aqueles que lutam contra a obesidade.
Historicamente, muitos brasileiros, como Glaucia Rocha, enfrentam a batalha contra a obesidade e suas consequências. Glaucia, que chegou a pesar mais de 300 quilos, conseguiu realizar cirurgia bariátrica e, agora, com a ajuda das canetas, espera alcançar um peso saudável pela primeira vez em anos. Sua história é um reflexo da luta de muitos que, com o suporte adequado, podem encontrar uma nova chance na vida.

