A Tragédia do Césio 137 e seus Heróis Invisíveis
Em setembro de 1987, Goiânia foi marcada por um evento que se tornaria um dos maiores acidentes radioativos da história. Um composto azul brilhante, com apenas 19 gramas, gerou uma quantidade impressionante de seis mil toneladas de lixo. O que poderia parecer um enredo de ficção se revelou uma terrível realidade: o desastre do Césio 137. Tudo começou quando dois catadores de materiais recicláveis encontraram um aparelho de radioterapia em uma clínica abandonada e o desmontaram em um ferro-velho, liberando a substância contaminante que atingiu centenas de pessoas e atingiu casas e ruas da cidade. A situação exigiu uma resposta rápida da ciência e do governo para evitar uma tragédia ainda maior.
A partir de hoje, essa história é recontada de forma dramatizada na série “Emergência Radioativa”, disponível na Netflix. Com cinco episódios de uma hora, a produção traz à tona os diversos aspectos e personagens envolvidos nesse triste episódio. Dirigida por Fernando Coimbra e criada por Gustavo Lipsztein, a série tem como protagonista o físico Márcio, interpretado por Johnny Massaro, que é inspirado em Walter Ferreira, o cientista responsável por detectar a radioatividade no local.
Massaro revela que, ao ler o texto e a sinopse, inicialmente não sabia que se tratava de uma história real. “Pensava que era ficção”, conta o ator, que nasceu cinco anos após o ocorrido. “Quando soube que era verdade, pensei: ‘Preciso, de toda forma, participar dessa história.’ Imagina quantas pessoas não têm conhecimento sobre isso? E é perigoso não saber”, reflete.
No ano anterior, Massaro também teve destaque em outra série, “Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente”, que retrata a epidemia de Aids nos anos 1980. Nela, ele vive um comissário de bordo que começa a contrabandear o medicamento AZT antes de sua autorização no Brasil. “As histórias falam sobre solidariedade e coragem diante do desconhecido”, afirma. “E, em ambas as séries, temos heróis invisíveis, sem os quais não estaríamos onde estamos hoje devido ao esforço e dedicação deles.”
Uma figura central no caso do Césio 137 foi Maria Gabriela Ferreira, esposa do dono do ferro-velho que comprou a peça dos catadores. Ela alertou a Vigilância Sanitária sobre os problemas de saúde que afetaram seus familiares, suspeitando que estavam ligados à misteriosa sucata. Na série “Emergência Radioativa”, a coragem e a intuição de Maria Gabriela dão origem à personagem Antônia, interpretada por Ana Costa. O marido de Antônia, Evenildo, é vivido por Bukassa Kabengele. Ana destaca que a série não tem a intenção de reproduzir os fatos de forma literal, mas de prestar homenagem à memória da cidade e das vítimas, que somam quatro mortes imediatas, além de cerca de 60 casos apontados pela Associação de Vítimas do Césio 137.
Paulo Gorgulho, que vive o físico Benny Orenstein, inspirado no diretor da Comissão Nacional de Energia Nuclear, José de Júlio Rozental, descreve a série como um tributo. “É um reconhecimento da tragédia, da gravidade do que ocorreu, mas também uma homenagem à coragem e à resiliência da população e da comunidade científica”, afirma.

