O êxodo populacional do Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro registrou uma queda populacional expressiva entre 2017 e 2022, perdendo mais de 165 mil moradores para outros estados, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa redução absoluta é a maior do país nesse período e reflete uma série de fatores que vão muito além das estatísticas. A migração está concentrada principalmente em direção a São Paulo, que recebeu cerca de 71 mil cariocas, atraídos pela busca por emprego e melhores condições de vida.
O demógrafo Márcio Misuo, do IBGE, destaca que a crise econômica é o principal motor dessa movimentação. O cenário de insegurança pública e o alto custo de vida no Rio de Janeiro também pesam na decisão de muitos moradores que optam pela mudança. A retração econômica acarretou menos oportunidades, especialmente para jovens e profissionais qualificados, enquanto outros estados ampliaram sua capacidade de geração de emprego.
Histórias que ilustram o movimento migratório
Igor Pereira, de 25 anos, é um dos que deixaram o Rio rumo a São Paulo. Formado em Economia pela UFRJ, ele acompanhou a mudança da diretoria da empresa de seguros onde trabalha para a capital paulista e decidiu migrar no final de 2023. “Eu já pensava em ir desde então, mas esperei terminar a faculdade. Me adaptei rápido, tanto pessoal quanto profissionalmente”, relata.
Outro exemplo é Cássio Luan Rodrigues, de 27 anos, que saiu do Recreio para trabalhar com marketing em São Paulo. “O mercado paulistano é mais dinâmico, consegui fazer muitas conexões. Sinto falta da família, mas os sacrifícios valem a pena”, afirma ele, que não concluiu o curso de Empreendedorismo e Gestão na Estácio de Sá antes da mudança.
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Quem chega: a atração do Rio de Janeiro ainda existe
Apesar das perdas, o Rio de Janeiro também recebe novos moradores, como Amanda Gonçalves, paulistana de 28 anos, que se mudou para cursar Direito na UFRJ após passar no Enem. “Não conhecia o Rio antes, mas me apaixonei pela cidade. Montei minha rede de apoio e meus amigos aqui se tornaram minha família”, conta Amanda, que hoje cursa pós-graduação em Direito Tributário na UERJ.
Bárbara Scorsin, que veio de Curitiba (PR) há dez anos, destaca a cultura carioca como motivo para permanecer no Rio. “Meus planos são ficar aqui para o resto da vida. A adaptação à criminalidade foi difícil, mas valeu a pena”, comenta Bárbara, que trouxe sua família para a cidade.
Gabriel Xavier, natural de Manaus e criado em Parintins (AM), também se mudou para o Rio em 2024 para estudar Direito na UFRJ. Ele relata as dificuldades com o clima e a violência, comparando as realidades das duas regiões. “Lá em Manaus, há mais assaltos, mas aqui o risco de bala perdida é maior”, explica.
Desafios para a recuperação econômica e demográfica
O professor Vitor de Pieri, do Departamento de Geografia Humana da UERJ, aponta que a queda populacional do Rio está ligada a uma transformação econômica mais ampla no Brasil. O estado sofreu com a crise fiscal, a redução de investimentos e o impacto da Operação Lava Jato, que afetou setores-chave como petróleo, engenharia e construção civil.
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Enquanto isso, São Paulo ampliou sua atração com um mercado de trabalho diversificado e próximo geograficamente, facilitando a migração de famílias fluminenses. Pieri ressalta que o maior desafio do Rio é recuperar sua capacidade de atrair e reter população jovem e qualificada, o que depende diretamente da geração de empregos, renda e perspectivas concretas para o futuro.
O que os números revelam sobre a migração no Rio
Entre 2017 e 2022, o Rio de Janeiro teve a maior redução populacional absoluta do Brasil, com uma perda de 165.360 habitantes, sem contar estrangeiros e não declarados. Essa queda contrasta com o período entre 2005 e 2010, quando o saldo migratório foi positivo, com 23.104 pessoas chegando ao estado.
Além disso, o número de estrangeiros no Rio também diminuiu, passando de 96.821 para 80.292, enquanto o Brasil viu um aumento significativo nesse contingente. A comunidade estrangeira remanescente no Rio é majoritariamente composta por portugueses, argentinos e italianos, com uma população envelhecida devido à chegada de imigrantes europeus há décadas.
O fenômeno da migração reflete, portanto, um momento delicado para o Rio de Janeiro, que precisa enfrentar questões econômicas, sociais e de segurança para reverter o quadro e recuperar seu dinamismo.

