O Desafio da Dependência do Petróleo
O navio indiano ‘Nanda Devi’, carregado com gás liquefeito de petróleo (GLP), atracou no porto de Vadinar, localizado no distrito de Jamnagar, no estado de Gujarat, em 17 de março de 2026. Sua passagem pelo Estreito de Ormuz, um ponto vital para o comércio energético global, foi autorizada pelo Irã, em meio a um cenário de conflito no Oriente Médio. Juntamente com o petroleiro ‘Shivalik’, o ‘Nanda Devi’ transportou aproximadamente 92.700 toneladas métricas de GLP, destacando-se como uma exceção em tempos de tensão no comércio internacional. — Foto: AFP
Três anos após o início da guerra no Oriente Médio, a realidade da dependência global do petróleo, frequentemente chamado de ‘ouro negro’, permanece inalterada, mesmo diante de suas consequências ambientais drásticas. A economia e a segurança energética em escala mundial estão ameaçadas, o que leva a urgentes discussões sobre a necessidade de uma transição definitiva para energias renováveis, quase 167 anos depois do primeiro barril comercial extraído na Pensilvânia, Estados Unidos.
Entretanto, apesar das crescentes chamadas por mudança, as tendências globais revelam que os compromissos da COP28 estão longe de serem cumpridos. A política do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ilustra bem esse cenário: após popularizar o slogan “drill, baby, drill” (perfura, querido, perfura), ele interveio em países ricos em petróleo como Venezuela e Irã.
Por que é tão complicado deixar o petróleo para trás? Vamos explorar alguns dos fatores que contribuem para essa situação.
A Economia em Jogo
Os mercados financeiros são sensíveis às oscilações do preço do barril, uma vez que os agentes econômicos estão profundamente entrelaçados com os ativos vinculados aos hidrocarbonetos. “Não podemos simplesmente interromper as empresas de combustíveis fósseis abruptamente; isso resultaria em uma catástrofe econômica global sem precedentes. Gigantes do setor bancário, como o HSBC, enfrentariam sérias dificuldades”, afirma Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima do Brasil, em entrevista à AFP.
A dependência econômica não está restrita apenas a países como Arábia Saudita, Kuwait e Iraque. O Brasil, por exemplo, veria sua balança comercial severamente afetada se retirasse a Petrobras de seu contexto econômico, dado que o petróleo é um dos seus principais produtos de exportação. Em outros países, como a Colômbia, a dependência das receitas do petróleo é tão significativa que o presidente Gustavo Petro solicitou um alívio na dívida soberana para viabilizar suas promessas de não assinar novos contratos de exploração de petróleo.
A Questão da Vontade Política
Potências exportadoras de petróleo, como Estados Unidos, Canadá e Austrália, têm condições de iniciar a transição energética, segundo Bill Hare, diretor do instituto Climate Analytics. “A questão é a vontade política”, acrescenta. Contudo, com a possibilidade de um retorno de Trump ao poder e o avanço de governos de extrema direita, os interesses econômicos frequentemente ficam à frente da urgência em combater o aquecimento global, mesmo quando a questão não é negada.
Leonardo Stanley, pesquisador associado do Centro de Estudos de Estado e Sociedade de Buenos Aires, observa que existe uma perspectiva no Ocidente, especialmente nos EUA, de retornar a modelos de desenvolvimento de curto prazo. Isso pode dificultar a adoção de políticas mais sustentáveis.
O Poder do Lobby do Petróleo
As grandes empresas de petróleo, como a ExxonMobil e a saudita Aramco, exercem uma forte influência nas conferências anuais da ONU sobre o clima, defendendo seus interesses, muitas vezes com a ajuda de consultorias renomadas como a McKinsey. “O setor de óleo e gás é o lobby mais poderoso do mundo”, afirma Angelo, ressaltando que há mais de 30 anos essas corporações se dedicam a atrasar mudanças necessárias.
Quem Arca com a Conta?
Para efetivamente abandonar o petróleo, será imprescindível o apoio financeiro dos países desenvolvidos para ajudar os produtores dependentes, além de um suporte direcionado aos países mais vulneráveis, garantindo que todos possam participar dessa transição. “É essencial que haja disposição das grandes potências econômicas em criar um sistema internacional que viabilize essa mudança”, destaca Bill Hare.
Sinais de Esperança nas Energias Renováveis
Apesar dos desafios, existem avanços notáveis. As energias renováveis alcançaram um recorde de quase 50% da capacidade elétrica global em 2025, conforme dados da Irena, uma entidade intergovernamental que fomenta a transição energética. A China, a maior emissora mundial de gases de efeito estufa, ao mesmo tempo lidera na produção de energias renováveis, expandindo extraordinariamente suas capacidades eólicas e solares no último ano. No Paquistão, a energia solar, que era marginal em 2020, agora se destaca como uma das principais fontes de eletricidade.
Em várias regiões da Austrália e dos Estados Unidos, o crescimento das energias renováveis também resultou em contas de luz mais baixas, segundo Bill Hare. A mudança é possível, mas requer um empenho coletivo e estruturado para superar os obstáculos ainda presentes no caminho.

