Eleição histórica marca avanço da representatividade brasileira na Flórida
Felipe Sousa-Lazaballet, 40 anos, natural de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, conquistou uma vitória inédita ao se eleger deputado estadual na Flórida, tornando-se o primeiro brasileiro a integrar o legislativo do Estado americano. Apesar de memes na internet questionarem a origem do político, ele conquistou 49.752 votos, o equivalente a 62,41% do eleitorado no Distrito 42, na região metropolitana de Orlando, um Estado tradicionalmente republicano.
Filho de uma empregada doméstica cearense, Sousa-Lazaballet saiu do Brasil aos 14 anos e enfrentou mais de uma década vivendo nos Estados Unidos sem documentos. Durante esse período, enfrentou inúmeras dificuldades, incluindo portas fechadas no mercado de trabalho e no acesso à educação. Mesmo assim, conseguiu cursar Relações Internacionais no Miami Dade College, que aceitava inscrições de pessoas indocumentadas na época.
Foi apenas em 2021 que ele obteve a cidadania americana, condição necessária para atuar na política institucional. Antes disso, participou de mobilizações importantes, como a marcha a pé da Flórida até Washington em 2010, que reivindicava a legalização dos chamados dreamers, imigrantes trazidos para os EUA ainda crianças. A permissão para trabalhar veio aos 26 anos, quando passou a se enquadrar no programa DACA, criado para proteger temporariamente imigrantes jovens contra deportação.
Posicionamentos firmes sobre imigração e política local
Em entrevista à BBC News Brasil, Sousa-Lazaballet atribuiu sua vitória ao trabalho intenso de campanha, que envolveu contato direto com eleitores, e ao desgaste das políticas adotadas pelo ex-presidente Donald Trump. Ele criticou o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), apontando que escolas públicas do condado de Orange perderam milhares de alunos, filhos de imigrantes, por conta de deportações ou medo.
O deputado eleito também se posicionou contra o abrigo concedido pelo governo americano ao senador Flávio Bolsonaro (PL), que está na Flórida desde 28 de outubro, classificando a situação como incoerente diante da deportação de pessoas que nunca cometeram crimes. “Não faz sentido nenhum para mim aceitar um político fugido do Brasil”, afirmou.
Para Sousa-Lazaballet, os brasileiros eleitos nos Estados Unidos têm potencial para atuar como uma ponte econômica, social e cultural entre Brasil e EUA, países cujas relações se tornaram tensas durante os mandatos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
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Agenda legislativa focada em direitos e desenvolvimento
Na Assembleia da Flórida, o democrata pretende implementar uma agenda chamada “Prosperando Juntos”, que aborda cinco áreas principais: moradia acessível, educação pública, saúde, meio ambiente e direitos civis. Defensor dos direitos dos inquilinos, ele também pretende enfrentar as seguradoras de imóveis e aumentar investimentos em infraestrutura para combater enchentes e outros efeitos das mudanças climáticas.
Como o primeiro imigrante que se declara gay a ocupar o cargo na Flórida, pretende dar atenção especial aos direitos de mulheres, pessoas negras e da comunidade LGBT+.
Trajetória pessoal e engajamento político
Felipe Sousa-Lazaballet relembra que cresceu em Santa Cruz da Serra, em Duque de Caxias, em condições precárias, sem asfalto e com infraestrutura deficitária. Ele relata que chegou aos Estados Unidos com uma mala quebrada e muitos sonhos, enfrentando dificuldades para concluir seus estudos devido à situação irregular.
Somente após conseguir a cidadania americana, em 2021, iniciou o engajamento formal no Partido Democrata e decidiu se candidatar. Antes, já havia atuado como assessor do prefeito de Orlando, Buddy Dyer, o que lhe deu contato direto com a política local.
Imigração e política na Flórida: desafios e oportunidades
O deputado eleito destaca que a Flórida é o Estado que mais deporta pessoas nos EUA, resultado de uma lei estadual de 2025 que obriga a polícia local a colaborar com o ICE. Isso gerou medo e afastamento entre imigrantes, que chegaram a reduzir em cinco mil o número de alunos nas escolas públicas do condado de Orange.
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Para Sousa-Lazaballet, a questão da imigração deveria ser tratada exclusivamente pelo governo federal, mas a atuação dos Estados tem causado danos à comunidade imigrante e a toda a população. Ele ressalta que o ICE é o órgão mais malvisto desde sua criação, sinalizando uma mudança na percepção pública sobre imigrantes.
Perspectivas para a relação Brasil-EUA e críticas a Flávio Bolsonaro (PL)
Com sete brasileiros eleitos deputados estaduais em diferentes Estados americanos, Sousa-Lazaballet vê uma oportunidade para fortalecer a relação entre Brasil e Estados Unidos, especialmente em áreas econômicas e sociais. Ele destaca que, apesar de ter nascido no Brasil, vive mais tempo nos EUA e entende as dinâmicas de ambos os países.
Ao ser questionado sobre a chegada de Flávio Bolsonaro (PL) à Flórida, o deputado criticou a decisão do governo americano de abrigar o senador, afirmando que a soberania brasileira e a justiça devem ser respeitadas. Ele considera incoerente que, enquanto políticos como Flávio Bolsonaro recebem abrigo, empregadas domésticas indocumentadas sejam deportadas.
Relação com a comunidade brasileira e desafios políticos locais
Sousa-Lazaballet afirma que mantém diálogo com a comunidade brasileira na Flórida, independentemente das diferenças políticas. Ele destaca que a representatividade é essencial e que seu foco é trabalhar por soluções concretas para a população local.
O deputado considera que o momento político atual, marcado pelo aumento do custo de vida e pela adoção de leis anti-imigrantes e contra a comunidade LGBT, abriu espaço para uma agenda progressista que prioriza a justiça social e o bem-estar da população.

