Conexões Entre Crime Organizado e Eleições na Baixada Fluminense
No fim da tarde de 3 de setembro, um carro de som estacionou numa praça do Jardim Brasil, em Belford Roxo, região da Baixada Fluminense. Sob o som do jingle da dobradinha Márcio Canella e Antônio Rueda, candidatos pela União Brasil a deputado estadual e federal, um jovem assumiu o microfone. “A família Varandão está presente nessa grande reforma da praça, que logo vai ser concluída. Fomos nós que indicamos essa obra! Gente, no dia 4 de outubro, é Canella e Rueda para continuar avançando. Com muita humildade, pedimos seu voto de confiança”, afirmou Ryan Silva, filho de Fábio Augusto de Oliveira Brasil, conhecido como Fabinho Varandão. O chefe do clã, além de ex-vereador em Belford Roxo, foi condenado a 12 anos de prisão por liderar uma milícia que monopolizava o fornecimento de internet em diversos bairros da cidade.
Belford Roxo: Epicentro da Infiltração do Crime nas Eleições do Rio
A sentença contra Varandão, proferida em agosto de 2025, não o impediu de participar ativamente da campanha do padrinho político. Próximo ao pleito, seu perfil no Instagram ainda exibia postagens de apoio ao ex-prefeito, com uma foto dos dois abraçados e a hashtag “#TôComCanella”. Somente após o posicionamento do Ministério Público Eleitoral (MPE) contra a candidatura, devido ao vínculo explícito, o miliciano removeu o perfil. Ryan, então, assumiu o protagonismo na campanha como representante do pai.
Em setembro, Ryan participou de pelo menos nove eventos de campanha na cidade, demonstrando claramente quais candidatos contam com o aval da “família Varandão”. Essa articulação política associada ao grupo paramilitar revela como Belford Roxo se tornou um dos principais focos da infiltração eleitoral no estado do Rio de Janeiro. O fenômeno serve de exemplo para um modus operandi que se espalha pelo estado, conforme detalhado na série especial “Um tiro no pleito”, iniciada pelo O GLOBO.
Milícias e Candidaturas: A Reação da Justiça Eleitoral
Quando Varandão tentou se candidatar a vereador em 2024, ainda não havia sido condenado, mas as acusações contra ele eram graves. O Ministério Público do Rio relatou que, seis anos antes, Fábio invadiu armado uma festa de aniversário para ameaçar um empresário interessado em instalar um provedor de internet na área dominada pela milícia. “Estou sabendo que você está montando um provedor de internet, está cabeando na minha área. Pode tirar tudo que a área é minha”, declarou, provocando o abandono do evento e o cancelamento dos negócios na região.
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Até então, a Justiça Eleitoral avaliava candidaturas suspeitas de vínculos criminosos segundo a Lei da Ficha Limpa, que considera inelegíveis apenas condenados por órgãos colegiados. Casos como o de Varandão não eram suficientes para barrar candidaturas. Situação semelhante ocorreu com outros políticos locais, como Eduardo Araújo, vereador da base de Canella, condenado em primeira instância a oito anos por integrar milícia responsável por homicídios para manter “a ordem local”. Outro exemplo é Sérgio Accioly dos Santos, o Dinho Resenha, preso em 2024 por negociar com traficantes para fazer campanha em áreas dominadas pelo Terceiro Comando Puro (TCP).
Diante desse cenário, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) criou um grupo de trabalho com as forças de segurança para coibir candidaturas ligadas ao crime organizado. A partir de 2024, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adotou um novo entendimento com base no artigo 17 da Constituição, que proíbe organizações paramilitares em partidos políticos. Assim, qualquer evidência convincente de ligação com o crime organizado passou a ser motivo para indeferimento de candidaturas.
Campanhas Ativas Mesmo Após Impugnações
Candidatos barrados em 2024, como Varandão, Araújo e Dinho Resenha, permanecem ativos nas eleições atuais. Eduardo Araújo, por exemplo, distribuiu panfletos de apoio à chapa Canella e Rueda e só removeu imagens após pedido de impugnação. Para o Ministério Público Eleitoral, a participação desses ex-vereadores evidencia que Canella utiliza “prestígio político, domínio territorial e estrutura de lideranças paramilitares barradas pela Justiça Eleitoral para impulsionar sua candidatura”. O TRE-RJ ainda não julgou o pedido de registro do ex-prefeito.
Dinho Resenha, condenado a três anos por corrupção eleitoral em setembro de 2025, atua na campanha de outro grupo político da Baixada, liderado por Felipinho Ravis e Dr. Luizinho, ambos do PP. Ele tem presença confirmada em eventos e reuniões de alinhamento da campanha em Belford Roxo.
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A Atuação Direta de Milicianos em Campanhas
Além dos candidatos barrados, uma investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) revelou que milicianos participaram diretamente como cabos eleitorais. Matheus Ribeiro Ferreira, conhecido como Pim, número dois da quadrilha que atua nos bairros Xavantes e São Francisco, foi fotografado em eventos do vereador Matheus Ricardo de Oliveira, o Matheus Igual a Você (Republicanos), que buscava o terceiro mandato. Apesar de uma operação policial tentar sua prisão durante uma reunião política em junho de 2024, Pim conseguiu fugir e posteriormente foi capturado em setembro de 2025.
Matheus Igual a Você foi reeleito com 2.993 votos e hoje apoia ativamente a candidatura de Canella, discursando em caminhadas e carreatas pelo município.
Reações e Posicionamentos Oficiais
Sobre a participação de milicianos condenados na campanha, Canella afirmou que ambos eram secretários do governo anterior, de seu adversário político, e que, ao saber das condenações, exonerou os envolvidos. O GLOBO não conseguiu contato com os demais citados na investigação.
Até a última sexta, o TRE-RJ indeferiu dez candidaturas vinculadas a grupos criminosos no pleito atual, cinco vezes mais do que a soma das três eleições anteriores. A Justiça Eleitoral, com o apoio do Eleitoral (TSE), mantém o foco no combate à infiltração do crime organizado nas eleições do Rio, especialmente em cidades como Belford Roxo, onde o problema é mais evidente.

