O Início de uma Nova Era Educacional
No ano de 1976, em meio ao regime militar brasileiro, ocorreu um episódio que mudaria a trajetória do ensino no país. Um prédio, construído com recursos públicos para ser uma escola da rede municipal – a Escola Politécnica de Foz do Iguaçu, no Paraná – foi repassado à iniciativa privada, dias antes de sua inauguração. O Colégio Anglo-Americano, contratado pela Itaipu Binacional, ficou responsável pela educação dos filhos dos funcionários da hidrelétrica. Esse fato não apenas deu início a uma rede nacional de ensino privado como também, em grande medida, foi sustentada por verbas federais, gerando um impacto significativo no sistema educacional.
A construção da Escola Politécnica visava amenizar o déficit escolar em Foz do Iguaçu, onde, segundo registros do governo estadual, cerca de 3 mil crianças estavam fora da sala de aula.
Uma Decisão Controverso
José Kuiava, um professor aposentado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e na época inspetor de ensino, recorda o momento em que recebeu a ordem de entregar as chaves da escola ao fundador do Colégio Anglo-Americano, Ney Suassuna. “A ordem chegou de Curitiba, via telefone, do diretor-geral da Secretaria de Educação, o professor Ernesto Penauer, pedindo para que eu entregasse as chaves ao senhor Ney Suassuna”, relata Kuiava. Ele menciona o constrangimento da situação, já que havia anúncio público sobre a inauguração da escola, que agora seria administrada pelo Anglo-Americano, à disposição da Itaipu.
O contrato formalizando essa parceria foi assinado em fevereiro de 1976 entre o Anglo-Americano, Itaipu e a Unicon, o consórcio responsável pela construção da usina. O acordo previa que as empreiteiras, pagas com recursos públicos da Itaipu, garantiriam o pagamento de pelo menos 1.000 vagas. Contudo, logo no primeiro ano de funcionamento, o colégio registrou mais de 10 mil matrículas. Durante o auge das obras, esse número chegou a 14 mil alunos.
Custo da Educação e o Lucro Privado
A mensalidade estabelecida para o Anglo-Americano variava de CR$ 300 a CR$ 500, valores que seriam pagos pela Itaipu, com reajustes anuais. Para efeito de comparação, em 1975, uma creche voltada para crianças de baixa renda no Rio de Janeiro cobrava CR$ 70. Ao contrário de outras instituições privadas, o Anglo-Americano não corria o risco de inadimplência. Para a professora Denise Sbardelotto, da Unioeste, o contrato com o Anglo-Americano foi extremamente prejudicial para a administração pública. Ela destaca que Itaipu e a Unicon construíram toda a infraestrutura, mas deixaram a gestão ao Anglo-Americano, que, segundo ela, se beneficiou enormemente da situação.
“Itaipu e a Unicon construíram todos os prédios, desde carteiras e mobiliários até material pedagógico, e entregaram para o Anglo-Americano administrar por muitos anos. Era uma verdadeira galinha dos ovos de ouro”, observa Denise.
Crescimento Desproporcional
O Colégio Anglo-Americano, que antes tinha apenas 500 alunos no Rio de Janeiro, registrou um crescimento impressionante de 2.800% após a associação com a Itaipu. Ney Suassuna, seu fundador, expressou sua surpresa ao ver a nova realidade: “Eu fiquei pasmo de ver que era um mundo. O meu colégio no Rio tinha 500 alunos, o de lá tinha 14 mil”.
O contrato com Itaipu não só beneficiou a escola em Foz do Iguaçu, mas também abriu portas para que Ney Suassuna firmasse acordos com outras estatais, como a hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, e com a Petrobras. O Anglo-Americano passou a atender as famílias dos trabalhadores da construção de Itaipu no lado paraguaio, potencializando ainda mais o crescimento da instituição.
Desigualdade Educacional em Foz do Iguaçu
Nessa estrutura educacional, as desigualdades eram notórias. Havia unidades do colégio com diferentes níveis de qualidade de ensino, dependendo da classe social dos alunos. Os filhos dos trabalhadores braçais, por exemplo, estudavam em uma escola simples, com infraestrutura precária. Valdir Sessi, que estudou em ambas as unidades, relembra como era evidente a diferença de tratamento. “A violência simbólica era clara. A roupa, o cabelo, o tênis, tudo denunciava a classe social dentro do colégio”, diz Sessi.
Em sua pesquisa, Denise identificou que os alunos das escolas mais simples eram chamados de “chuta-barros”, em referência ao barro nos calçados. A diferença educacional era gritante, com as crianças da Vila A recebendo uma formação voltada para o ensino superior, enquanto os da Vila C eram direcionados a cursos profissionalizantes.
Impactos Duradouros
Com a construção da usina, a população de Foz do Iguaçu cresceu exponencialmente, e os problemas educacionais se intensificaram. De 1970 a 1980, a população saltou de 34 mil para 136 mil habitantes, e, com isso, a infraestrutura educacional não acompanhou o ritmo. A situação se agravou a ponto de a carga horária dos estudantes da rede pública ser reduzida para implementar um terceiro turno de aulas.
Em nota, a Itaipu Binacional se defendeu, alegando que a contratação do Anglo-Americano foi uma resposta à necessidade de criar uma infraestrutura educacional que não existia na cidade. A empresa também ressalta que os alunos tinham acesso a uma educação inovadora e integral, que incluía atividades artísticas e culturais.
O Legado de uma Escolha
Atualmente, o Anglo-Americano de Foz do Iguaçu não pertence mais a Ney Suassuna. Ao ser questionado sobre a escolha de direcionar recursos públicos para a educação privada, Suassuna argumentou que o poder público não teria condições de estruturar a rede pública de ensino na época. A história nos mostra as complexidades e consequências de decisões tomadas durante um período conturbado da nossa história, revelando um legado que ainda influencia a educação no Brasil.

