A Lamentação por um Espaço Inesquecível
O Teatro de Contêiner, um ícone da cultura paulistana, foi demolido no final de março, em um movimento executado pela Prefeitura de São Paulo. A destruição ocorreu após uma longa disputa judicial envolvendo o prefeito Ricardo Nunes (MDB) e a Cia Mungunzá, que geriu o espaço por quase uma década. Embora a estrutura física não exista mais, as memórias e as histórias deixadas por aqueles que passaram por ali permanecem vivas, assim como a esperança de transformar o mundo através da arte.
Virginia Iglesias, atriz e produtora da Cia Mungunzá, expressa sua tristeza: “Era um espaço que oferecia oportunidades a quem não as tinha. Recebíamos artistas iniciantes, recém-formados ou em formação. Esse era o verdadeiro tesouro do nosso espaço. Agora, tudo isso se perdeu.”
Verônica Gentilin, também atriz e produtora, acrescenta que o Teatro não era apenas um palco, mas sim um ambiente que celebrou a diversidade cultural e incentivou a interação com a comunidade. “Quando fundamos o Teatro de Contêiner há quase dez anos, não sabíamos que nos transformaríamos em um polo cultural. Amigos de outras companhias nos elogiavam por aquilo que chamavam de um espaço de diálogo, onde a arte se desenvolvia em harmonia com o entorno.”
Um Polo Cultural de Inclusão
Durante sua existência, o Teatro de Contêiner destacou-se por ser um local democrático, onde artistas e público de diferentes classes sociais e origens se reuniam. Estavam presentes ali terapeutas, psicólogos, políticos e até mesmo pessoas em situação de rua, que compartilhavam o mesmo espaço. O local, localizado na Rua dos Gusmões, no Centro de São Paulo, próximo à área conhecida como “Cracolândia”, virou um símbolo de inclusão e empatia.
“Víamos pessoas de todas as origens sentadas na mesma plateia. Era quase utópico. Um complexo cultural que dialogava intensamente com a cidade,” recorda Iglesias.
A Luta pela Sobrevivência do Teatro
A Cia Mungunzá recebeu permissão para ocupar o espaço e iniciou a construção dos contêineres em 2016, inaugurando o teatro no ano seguinte. Desde então, diversas peças, mostras e oficinas culturais foram realizadas, consolidando o Teatro de Contêiner como uma referência artística. Sandra Modesto, atriz e produtora, relata que o surgimento desse espaço foi resultado do esforço coletivo da companhia. “Consideramos essa construção um dos nossos maiores feitos artísticos,” afirma.
Gentilin explica que o objetivo era criar um espaço próprio para garantir autonomia nas apresentações. “O projeto surgiu da reflexão sobre como grupos independentes utilizavam espaços privados. Assim, planejamos cada detalhe, desde a instalação dos contêineres até a captação de recursos necessários para a obra,” destaca.
Desafios e Conflitos com a Prefeitura
O primeiro aviso sobre a intenção da prefeitura de reocupar o espaço foi recebido em maio de 2025, durante a apresentação do espetáculo Elã. A Cia Mungunzá enfrentou uma batalha judicial, argumentando que existia um acordo firmado com o estado de São Paulo além de editais que previam a manutenção do espaço. A prefeitura, por sua vez, alegou ocupação irregular, afirmando que havia ligações clandestinas de água e luz, e que pretendia construir um prédio de moradia popular no local.
Os membros da companhia ressaltam que, sob gestões anteriores, havia um diálogo aberto com o poder público. “As coisas eram conversadas e permitidas. Repentinamente, tudo se transformou em uma contenda judicial,” lamenta Iglesias, enfatizando que durante a pandemia, o espaço foi cedido à prefeitura para distribuir comida para pessoas vulneráveis.
A Demolição e o Futuro do Teatro
A prefeitura chegou a propor um novo local para os contêineres, mas os artistas afirmam que o espaço oferecido era inadequado. “O teatro possui paredes de vidro e precisa de um mínimo de recuo,” explica Paloma Dantas, técnica do polo. A comunidade artística se sentiu desarticulada e percebeu uma tentativa de separação entre o Teatro de Contêiner e os outros coletivos que ali atuavam.
O momento da demolição foi um choque. A companhia soube da destruição por meio de uma reportagem na televisão. “Estávamos voltando de uma apresentação quando recebemos a notícia. Fomos pegos de surpresa, sem qualquer aviso prévio,” conta Modesto, com um tom de frustração.
Esperanças e Novas Possibilidades
Embora a Cia Mungunzá enfrente um luto pelo espaço que se foi, há também um sentimento de esperança. “Acredito que é uma mudança que pode trazer algo novo. O Teatro de Contêiner não é apenas um espaço físico; é uma ideia que continua viva,” afirma Modesto.
Com o apoio da FUNARTE e do Ministério da Cultura, a companhia conseguiu espaços para continuar suas apresentações até o final do ano. “Esta luta é por muito mais do que a Cia Mungunzá. É por todos que utilizam e precisam daquele espaço,” enfatiza Dantas.
Verônica Gentilin acredita que a semente plantada pelo Teatro de Contêiner ainda germinará no futuro. “Vejo isso não como o fim, mas como o encerramento de um ciclo. Acredito que a essência desse espaço vai continuar a existir, mesmo que em novas formas,” conclui.

