Tia Ciata: O Legado de uma Pioneira do Samba
O anúncio de que Tia Ciata será o enredo da escola de samba Paraíso do Tuiuti no Carnaval de 2027, coincidentemente feito em 5 de março, três dias antes do Dia Internacional da Mulher, destaca a luta pela igualdade feminina – um tema que ecoa não apenas neste domingo, 8 de março, mas em todos os dias do ano. A escolha reflete a importância da matriarca do samba, que sempre esteve à frente de sua época e representa a força feminina na cultura brasileira.
Com o enredo “Ciata – A mãe preta do samba”, escrito por Cláudio Russo e Luiz Antônio Simas e desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage, a história de Hilária Batista de Almeida, nascida em 13 de janeiro de 1854 em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, ganha um merecido destaque. Figura central na formação do samba carioca, Tia Ciata é lembrada por seu papel como líder espiritual e musical, tendo se mudado para o Rio de Janeiro em 1876, aos 22 anos.
Localizada na Praça Onze, uma área conhecida como Pequena África, a casa de Tia Ciata se transformou em um espaço de acolhimento para sambistas, onde o samba, trazido da Bahia, se mesclava com as influências do Rio de Janeiro. Sua atuação é considerada decisiva para a difusão do samba, e é surpreendente que, mais de 100 anos após sua morte, em 2026, tenha finalmente sido reconhecida oficialmente como tema de um desfile.
O Papel de Tia Ciata no Samba Carioca
Tia Ciata não era apenas uma quituteira e ialorixá filha d’Oxum, mas também uma sambista nata, cuja energia festiva inspirava todos ao seu redor. Sua casa na Praça Onze era um ponto de encontro de renomados sambistas, muitos dos quais eram negros provenientes de comunidades centrais do Rio. Em tempos em que tocar samba era visto como sinônimo de vadiagem, ela desafiou esses estigmas, promovendo a arte e a cultura afro-brasileira em um ambiente acolhedor e criativo.
Como uma agitadora cultural, Tia Ciata organizava e participava de rodas de samba, onde dominava o partido alto e se destacava no passo do miudinho. Sua habilidade e carisma a tornaram uma figura central na cena musical carioca e sua influência se estendeu muito além de sua vida, moldando a identidade do samba brasileiro.
A Visibilidade das Mulheres no Samba
Historicamente, os homens têm sido os principais nomes lembrados como os primeiros bambas, tanto como ritmistas quanto como compositores. Contudo, a contribuição das mulheres, especialmente de Tia Ciata, muitas vezes foi minimizada ou até apagada. O reconhecimento de sua importância no carnaval e na cultura é um passo vital para a valorização do legado feminino no samba.
O enredo “Ciata – A mãe preta do samba” não é apenas uma celebração da figura de Tia Ciata, mas também uma oportunidade de refletir sobre a igualdade e a representatividade feminina no Carnaval e na sociedade de forma geral. A decisão da Paraíso do Tuiuti não só homenageia essa matriarca do samba como também promove um debate necessário sobre o papel das mulheres na música e na cultura popular brasileira.
À medida que se aproxima o Carnaval de 2027, a expectativa é de que essa homenagem traga à tona a rica história de Tia Ciata e inspire novas gerações a valorizar a diversidade e a contribuição das mulheres na formação do samba. Se depender do enredo da Paraíso do Tuiuti, Tia Ciata finalmente terá o espaço que merece na história do Carnaval carioca, celebrando a força e a resistência das mulheres na cultura brasileira.

