A Conexão Entre Doca e Tom Jobim
No cenário musical carioca entre as décadas de 1940 e 1950, Alcides Fernandes, carinhosamente apelidado de Doca, destacou-se como um dos primeiros mentores de Antonio Carlos Jobim. Com uma década a mais que o jovem compositor, Doca fez do morro do Cantagalo, localizado em Ipanema, seu lar. Foi nesse ambiente que ele apresentou Jobim ao universo do samba. Aos 21 anos, após abandonar o curso de Arquitetura, Jobim encontrou em Doca um verdadeiro embaixador nas rodas de samba da favela. Esse convívio rendeu frutos, como a composição musical de “Orfeu da Conceição”, em 1956, convite de Vinicius de Moraes, que levou o mito grego para o cenário das comunidades cariocas. Jobim, por sua vez, era reconhecido tanto por sua experiência musical quanto pelas vivências nas vielas e nas matas do Cantagalo.
À medida que o centenário de Jobim se aproxima, marcado para 25 de janeiro de 2027, a importância de Doca em sua vida e carreira se torna cada vez mais evidente. Silvina Fernandes, viúva de Alcides e agora com 95 anos, recorda-se com clareza das memórias que envolvem o marido e o ícone da bossa nova. Em entrevistas, ela compartilha detalhes valiosos sobre a amizade entre os dois e como essa relação se estendeu por diversas esferas.
Memórias da Vida no Cantagalo
Na intimidade de seu lar, Dona Sílvia relembra momentos afetivos ao lado de Jobim e sua família. Enquanto trabalhava como empregada da mãe de Thereza Hermanny, primeira esposa de Jobim, ela teve a oportunidade de conhecer o jovem compositor. “Doca e Tom costumavam pescar no Arpoador, e depois vinham para casa para saborear uma peixada que eu preparava”, partilha ela, recordando as longas noites regadas a samba. As rodas de samba e os barzinhos também eram parte de seu cotidiano, donde Doca e Tom saíam juntos frequentemente.
Após a partida de Doca, em 1962, vítima de cirrose, o convívio entre as famílias se tornou mais esporádico. Sílvia relembra que o sambista estava com apenas 46 anos, data que contrasta com a de seu nascimento, registrada como 21 de agosto de 1918 na certidão de casamento. Sérgio, o filho mais velho do casal, hoje com 73 anos e também compositor, guarda memórias de uma relação intensa, mas que foi interrompida precocemente com a morte do pai.
A Influência Musical de Doca
Alcides Fernandes teve um papel fundamental na formação do samba moderno, atuando não apenas como compositor, mas também como ritmista. Na década de 1940, ele e Silvina foram parte das reuniões que culminaram na fundação da escola de samba Império Serrano, e na década seguinte, Doca já collaborava com Bezerra da Silva, um dos grandes nomes do samba. Embora tenha falecido em um período em que a bossa nova estava em ascensão, seu legado musical não foi totalmente esquecido. Sua parceria com Jobim produziu clássicos como “Solidão”, que foi gravada por diversos artistas ao longo dos anos.
Hoje, a música de Doca é reavaliada e reconhecida, especialmente pela nova geração que busca entender suas raízes. Oportunidades de redescoberta de seu trabalho estão surgindo, e seu legado começa a ser resgatado com a ajuda de pesquisadores e músicos contemporâneos.
Um Novo Olhar Sobre Doca
A viúva de Alcides enfatiza que o repertório dele, embora possa parecer datado, merece uma nova pesquisa e avaliação. “Muitas canções, principalmente as carnavalescas, precisam ser redescobertas”, acredita Sérgio. O impacto de Doca na música popular brasileira é inegável, e sua relação com Tom Jobim foi um verdadeiro casamento de talentos que ajudou a moldar a cena musical carioca.
Com um legado que abrange desde sambas a marchinhas de carnaval, é importante que Doca seja lembrado não apenas como amigo de Jobim, mas como um dos grandes compositores que contribuíram para a história da música brasileira. A relação entre eles transcendeu o profissional, e suas peripécias juntos tornaram-se parte da rica tapeçaria musical do Brasil.

