O papel da merendeira na educação antirracista
Aos 58 anos, Vânia Maria de Carvalho, uma mulher negra e moradora da periferia, tem se destacado como uma forte defensora da valorização da identidade negra dentro da escola pública na Zona Norte do Rio de Janeiro. Mãe de quatro filhos e merendeira na rede municipal, sua trajetória se transforma em um símbolo de resistência contra o racismo. Após se afastar das atividades na cozinha devido a problemas de saúde, Vânia encontrou uma nova missão: trabalhar com as crianças e ajudá-las a se reconhecerem e valorizarem suas raízes.
Trabalhando na Escola Municipal Frei Leopoldo, Vânia descreve o bairro de Cavalcanti como uma área frequentemente negligenciada pelo poder público. A carência de infraestrutura, como equipamentos culturais e transporte de qualidade, aliada à falta de projetos educativos, impacta diretamente a autoestima das crianças naquela região. Isso a levou a perceber a importância de sua atuação não apenas na merenda, mas também no desenvolvimento social e cultural dos alunos.
Racismo entre os jovens: a constatação da realidade
Observando o cotidiano escolar, Vânia notou que questões raciais já estavam presentes nas interações entre os alunos. Expressões como “neguinho” eram utilizadas de maneira pejorativa, mostrando que a discriminação racial se manifestava desde os primeiros anos de vida. “Se uma criança usa isso para machucar a outra, é porque ela considera que ser negro é algo inferior, o que não é verdade. Isso me incomodou profundamente”, disse Vânia.
Para responder a essa realidade, ela decidiu promover rodas de conversa, oficinas e atividades pedagógicas focadas na valorização da identidade negra. O apoio da direção da escola tem sido essencial nesse processo, principalmente ao reconhecer a ausência de professores negros em cargos de referência. “Não temos professores negros concursados. A maioria é de pessoas brancas. Eu tinha lugar de fala para discutir a história afro-brasileira, tema que amo e que é parte da minha vida”, compartilhou.
Um desfile de autoestima e ancestralidade
Uma das iniciativas mais impactantes de Vânia foi o projeto denominado Manhã-Tarde da Beleza Negra, que culminou em um desfile realizado no final de novembro de 2025. Durante meses, Vânia trabalhou em sala de aula sobre estética negra, ancestralidade africana e a diversidade de tons de pele. As crianças foram estimuladas a explorar suas histórias familiares e entender a importância de elementos culturais, como cabelos e turbantes, na construção de suas identidades.
Com recursos limitados, Vânia improvisou as roupas do desfile utilizando lençóis, cangas e toalhas, além de turbantes emprestados. O evento teve um efeito transformador: “Teve criança negra que disse: ‘Eu não sabia que podia ser tão bonita’. Muitas nunca haviam usado turbante ou se visto com pinturas inspiradas em blocos afro”, recorda emocionada. Pais e responsáveis que assistiram ao desfile também foram tocados, com muitos se emocionando ao ver seus filhos se reconhecendo e celebrando suas raízes.
Enfrentando resistência e preconceito
Contudo, a jornada não foi isenta de desafios. Vânia enfrentou resistência e até racismo religioso. Um responsável procurou a direção da escola para reclamar que seu filho branco havia assistido ao desfile, argumentando que não queria que a criança participasse de “coisas africanistas”. Em outra situação, um aluno foi impedido pela família de participar de uma atividade simples de confeccionar pulseiras, associando-a às religiões de matriz africana. “Era uma atividade de valorização da cultura afro. Isso dói. Minha religião deve ser respeitada, assim como as outras”, desabafou Vânia.
Um futuro promissor e transformador
Além de sua atuação na escola, Vânia faz parte do coletivo Quilombo Etu, que desenvolve ações voltadas para a cultura popular e o letramento racial na Zona Norte. Seu próximo objetivo é estruturar o coletivo com oficinas aos sábados, oferecendo atividades de contação de histórias, dança, culinária e educação afrocentrada, buscando parcerias e recursos por meio de editais. “Eu não quero sair do bairro. Eu quero mudar o bairro”, afirma.
Vânia Maria de Carvalho demonstra que a educação sobre a história e cultura afro-brasileira vai muito além de conteúdos acadêmicos. Sua experiência em Cavalcanti prova que a educação antirracista requer ações concretas, contínuas e coletivas, envolvendo toda a comunidade. Essa transformação já está impactando positivamente a autoestima de crianças negras, criando redes de pertencimento e consciência racial que prometem um futuro mais justo e igualitário.
“Espero fortalecer uma rede de cuidado e transformação racial no território. Quero que outras pessoas se sintam encorajadas a agir. Investir na identidade e no pertencimento das crianças negras é investir no futuro delas e no Bem Viver da comunidade”, conclui Vânia, cheia de esperança.

