O Legado Cultural de Nelsinho Rodrigues
No dia 25 de fevereiro, o Rio de Janeiro se despediu de um de seus grandes ícones culturais: Nelson Rodrigues Filho, carinhosamente conhecido como Nelsinho. Com 80 anos, o dramaturgo, produtor cultural e militante político deixou uma marca profunda na cena artística e no coração dos cariocas. Sua morte gerou um luto coletivo, refletindo a amplitude de sua influência sobre artistas, políticos, amantes do carnaval e torcedores do Fluminense, time que sempre defendeu com paixão.
Fundador do Bar do Barbas e do bloco homônimo, Nelsinho dedicou sua vida à valorização do carnaval de rua, que se reerguia após anos de repressão. Em 1981 e 1985, respectivamente, ele criou espaços que se tornariam referências de resistência cultural, muito antes do carnaval ganhar a força que possui atualmente. A figura de Nelsinho, o Velho, não se limitava às festas; ele era um dos pilares da Sebastiana – a Associação de Blocos de Rua do Rio, onde atuou incansavelmente em prol do carnaval e da dignidade de todos os blocos de rua.
Uma Vida de Artes e Ativismo
Nascido em uma família de artistas, Nelsinho não era apenas filho do renomado dramaturgo Nelson Rodrigues, mas um artista por mérito próprio. Sua trajetória nas artes cênicas foi marcada pela interseção entre criatividade e crítica social. Ele se destacou como diretor teatral e roteirista, sempre buscando refletir os conflitos e dilemas da sociedade em suas criações.
Porém, sua vida também foi marcada por desafios. Durante a ditadura militar, Nelsinho se uniu ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), e encarou mais de oito anos de prisão. Essa experiência moldou sua visão política e reforçou seu compromisso com os direitos humanos. Quando finalmente libertado em 1979, no contexto da mobilização pela anistia, Nelsinho fez uma escolha admirável: recusou privilégios e defendeu que a liberdade deveria ser conquistada coletivamente, não de forma individual.
Retorno ao Carnaval e a Luta pela Cultura
Após sua saída da prisão, Nelsinho retornou à vida cultural com uma determinação renovada. Em 1981, junto a amigos, ele fundou o Bar do Barbas, local que se tornaria um reduto de resistência e um ponto de encontro para artistas e sambistas. Entre os frequentadores estavam nomes como Mauro Duarte e Beth Carvalho, que contribuíram com seu talento e apoio ao projeto.
Em 1985, nasceu o Bloco do Barbas, um símbolo da revitalização do carnaval carioca. O bloco, com sua irreverência e crítica política, destacou-se em um período marcado pela redemocratização e pela busca por expressões culturais autênticas. Desfilando pelas ruas de Botafogo, o Barbas tornou-se um espaço para a celebração da cultura popular, com sambas autorais que frequentemente abordavam temas sociais e políticos.
A Contribuição para a Sebastiana
Nelsinho também foi uma figura chave na fundação da Sebastiana, que teve um papel crucial nas articulações para garantir os direitos dos blocos de rua. Ele se destacou como um mediador apaixonado, defendendo a autonomia dos blocos e lutando por políticas públicas que garantissem a preservação do caráter popular e inclusivo do carnaval. Sua dedicação e comprometimento o tornaram uma referência incontestável na luta pela cultura carioca.
Últimas Homenagens
Em novembro de 2015, Nelsinho sofreu um AVC que afetou sua saúde, culminando em sua internação no Hospital da Unimed com pneumonia, onde veio a falecer. Ao longo de sua vida, ele recebeu diversas homenagens, inclusive do Fluminense Football Club, que expressou sua tristeza pela perda do torcedor apaixonado.
O velório de Nelsinho ocorrerá no Salão Nobre do clube, reunindo amigos, admiradores e representantes da cultura e da política, demonstrando o respeito e a admiração que conquistou. O sepultamento está marcado para as 17h no Cemitério São João Batista.
A partida de Nelsinho Rodrigues não representa apenas a perda de uma figura emblemática da cultura carioca, mas o fim de uma era marcada pela militância e pela fé na arte como forma de resistência. Seu legado, no entanto, permanece vivo nas memórias e nas vozes que ecoarão nos desfiles do Bloco do Barbas e nas histórias contadas por aqueles que acreditam na força transformadora do carnaval.

