Uma Imersão no Coração do Carnaval
Quando se fala em cultural, frequentemente ouvimos que é necessário mais financiamento. Contudo, Mariana Mazzucato, economista renomada, propõe que a cultura deve ser um ponto de partida para repensar o que e como deve ser financiado, visando objetivos claros. Essa reflexão resume a essência da missão realizada nos dias 6 e 7 de fevereiro, no Rio de Janeiro, parte da iniciativa internacional do Ministério da Cultura (MinC) que visa avaliar o Carnaval brasileiro como um elemento vital das políticas públicas, um motor da economia criativa e uma fonte de valor público.
Essa missão é resultado da parceria entre o MinC e o Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP), da University College London (UCL), onde Mazzucato exerce a direção, com o apoio técnico da UNESCO. As atividades estão programadas para acontecer em diversas cidades, incluindo Brasília e Salvador.
No Rio, a missão visitou locais emblemáticos do Carnaval, como a Cidade do Samba e o Sambódromo da Marquês de Sapucaí. A imersão revelou o Carnaval como uma infraestrutura cultural vibrante e estratégica, que contribui com trabalho, aprendizado e dinâmica econômica ao longo do ano.
O Trabalho nos Barracões
Na Cidade do Samba, a equipe teve a oportunidade de observar de perto os preparativos para os desfiles, percebendo o ritmo acelerado nos barracões. Figurinos, alegorias e fantasias estavam em fase final de confecção, destacando o Carnaval como um sistema complexo que exige inovação, colaboração e dedicação ao longo de todo o ano.
Durante a visita, o carnavalesco Tiago Martins compartilhou seu processo criativo, que abrange desde a pesquisa de enredos até a realização dos desfiles. Com uma carreira que começou aos 17 anos, ele ressaltou como o Carnaval é um espaço de adaptação e experimentação, onde os riscos criativos são fundamentais. “O que acontece aqui, no chão de fabrica do Carnaval, é muito diferente do que se vê nas grandes apresentações da indústria cultural global. É o local onde tudo começa, com a liberdade de criar e experimentar”, disse ele.
Mazzucato enfatizou que a experiência revelou aspectos da economia criativa que frequentemente são negligenciados pelas políticas públicas convencionais. Para ela, o Carnaval é um exemplo poderoso de como se pode criar valor coletivo e focar em uma economia que prioriza o bem comum. “O Carnaval é um espaço onde diversas formas de pensar e criar se reúnem em torno de um interesse comum, ajudando a situar as artes e a cultura no centro da economia”, afirmou.
Ela ainda destacou que a visita aos barracões demonstrou uma dinâmica sofisticada de aprendizado e desenvolvimento de habilidades, além de uma forte coesão social. “O que testemunhamos aqui é uma combinação impressionante de trabalho, formação e participação comunitária, aspectos que, infelizmente, muitas vezes passam despercebidos pelos governos”, refletiu Mazzucato.
Reconhecimento e Valorização do Trabalho Cultural
A vivência na Cidade do Samba também expôs uma economia que se estende muito além do carnaval. A secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura do MinC, Roberta Martins, ressaltou que entender essa dinâmica é crucial para garantir direitos e reconhecimento a quem vive do Carnaval. “O Carnaval funciona como uma engrenagem que não para. Após um desfile, o próximo já começa a ser planejado. Precisamos compreender como essa economia informal opera para que possa ser defendida e valorizada”, afirmou.
Esta questão econômica está alinhada com a perspectiva da secretária de Economia Criativa do MinC, Cláudia Leitão, que defende o Carnaval como uma política pública estruturante. “Estamos falando de uma das economias mais robustas do Brasil, e é essencial que conheçamos essa realidade para apoiar os trabalhadores, garantir formalização e dignidade aos que sustentam essa grande engrenagem cultural”, completou.
O Papel das Escolas de Samba
A agenda da missão incluiu uma visita à quadra da Acadêmicos do Salgueiro, onde a história da escola e sua inter-relação com a comunidade foram exploradas. Dudu Botelho, benemérito da escola de samba, ressaltou a importância da escola na vida comunitária. “A escola de samba é uma parte fundamental do cotidiano, organizando trabalho, criatividade e identidade”, disse. Ele destacou o papel do Salgueiro em unir saberes populares de origem africana e educação formal em artes, reforçando a relevância do Carnaval como um espaço de produção cultural e valor coletivo.
Guilherme Oliveira, mestre de bateria da escola, compartilhou que sua conexão com o samba começou na infância através de projetos culturais na comunidade. “Aprendi música, disciplina e convivência aqui, e construí minha trajetória na escola de samba, com iniciativas dentro e fora do Brasil”, contou.
Mariana Mazzucato reforçou que o Carnaval é uma fonte de sustento para muitas famílias brasileiras e que é crucial que as políticas públicas sejam fundamentadas em escuta, valorização do saber e dignidade do trabalho cultural. “Ao olharmos o Carnaval como um estudo de caso, devemos nos perguntar como garantir a valorização e o financiamento adequado dessas atividades, respeitando sempre as comunidades que criam todo esse valor coletivo”, concluiu.
A Missão e Seu Impacto
A missão segue seu percurso pelo Rio de Janeiro, Brasília e Salvador, marcando o início oficial da cooperação entre o MinC e o IIPP com uma conferência sobre “O valor público das artes e da cultura”, programada para os dias 9 e 10 de fevereiro. Essa iniciativa é parte do esforço do Governo do Brasil em reposicionar a cultura como um eixo estratégico para o desenvolvimento nacional, planejamento estatal e fortalecimento das capacidades públicas.

