Ascensão cultural na Baixada
O coletivo Jamaicaxias tem movimentado a cena cultural da Baixada Fluminense de uma maneira que inverteu o roteiro tradicional dos eventos musicais na região. Antes, moradores locais costumavam se deslocar para outras áreas do Rio em busca de festas e shows com influência do reggae e dancehall. Agora, são os cariocas que vêm descobrir a potência dessa manifestação cultural diretamente em Duque de Caxias.
O sucesso dos eventos organizados pelo Jamaicaxias abriu portas para novas oportunidades na capital. Neste ano, o coletivo já subiu ao palco do Circo Voador, na Lapa, em três ocasiões, abrindo apresentações para nomes como Black Alien, Ponto de Equilíbrio e Anelis Assumpção. Além disso, marcaram presença em espaços como a Fundição Progresso, também na Lapa, e o Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá, expandindo sua circulação cultural pela cidade.
Transformações no coletivo e novos caminhos
Com a mudança na demanda e no público, o Jamaicaxias reformulou seu formato, deixando para trás as festas e bailes para se concentrar em performances nos palcos. Hoje, a formação é mais enxuta e conta com o MC KBrum, o DJ High Tuco e as bailarinas Isa Czar e Agatha Queen. Essa transição também foi influenciada pelo fechamento do Bar do Russo, espaço tradicional que encerrou suas atividades após o proprietário decidir se aposentar.
O reconhecimento do coletivo ultrapassou a Baixada quando Anitta, uma das maiores artistas brasileiras, manifestou interesse no trabalho do grupo. O produtor da cantora, Enzo Dicarlo, já familiarizado com a cena, identificou no líder do Jamaicaxias uma voz singular para uma faixa que mesclava dancehall e dub e que exigia uma presença forte e autêntica.
KBrum, voz da cena underground, ganha destaque nacional
Para KBrum, o convite foi uma surpresa que revelou novas possibilidades. Além de cantar, participou como compositor ao lado de nomes como Pablo Bispo, artista da Zona Oeste do Rio com trabalhos para IZA, Glória Groove e Pablo Vittar. A faixa escolhida, com refrão interpretado por KBrum, carrega referências locais e respeito às raízes, como na linha “Sal grosso, reza, vela, fósforo/ Em Madureira City, você tem que respeitar”.
O clipe da música foi gravado em uma pedreira em Guaratiba, em julho, numa ocasião em que KBrum encontrou Anitta pessoalmente pela primeira vez. Desde o lançamento, o vídeo já ultrapassou 5,5 milhões de visualizações no YouTube, enquanto a faixa soma mais de 4,5 milhões de reproduções nas plataformas de streaming, com picos de 389 mil acessos diários só no Brasil.
Impacto e futuro promissor
Essa visibilidade colocou KBrum e o Jamaicaxias em um novo patamar dentro da cena musical, mesmo que o sucesso ainda não tenha se traduzido financeiramente. O artista já recebeu convites para outros projetos e viu seu alcance digital crescer rapidamente, saltando de 5 mil para mais de 1 milhão de acessos em streaming em apenas três dias.
Paulo Henrique Brum, nome de batismo de KBrum, tem 38 anos e nasceu no Complexo da Manguerinha, onde seus pais ainda residem. Atualmente, ele vive no Jardim Primavera com a esposa, Isa, também integrante do coletivo, e o filho Rudah, de 14 anos. Antes de se dedicar integralmente à música, dividia seu tempo entre o trabalho na venda de móveis de escritório com o pai e a arte. As bailarinas do grupo já vivem da dança há mais tempo, mostrando a diversidade de trajetórias dentro do Jamaicaxias.
O coletivo está preparando seu primeiro álbum, “Raggaleluia”, previsto para sair até outubro. O single de estreia, “Pussy”, já está disponível nas plataformas digitais, ampliando a presença do Jamaicaxias no circuito cultural e sinalizando novos caminhos para a cultura derivada do reggae na Baixada Fluminense.

