Residências dos parlamentares na última legislatura do Rio de Janeiro como capital
Em 1959, último ano em que o Rio de Janeiro era sede do poder federal, os deputados federais eleitos ainda se estabeleciam na cidade, custeando seus próprios imóveis para morar durante os mandatos. Não existia auxílio-moradia, conforme relatou o baiano Waldir Pires ao GLOBO em 2015, apontando que o aluguel consumia metade do seu salário na época. Um caderno da Câmara dos Deputados, encontrado recentemente, revela os endereços de 336 deputados, incluindo os titulares e suplentes em exercício naquele ano, ilustrando o perfil residencial dos parlamentares antes da transferência da capital para Brasília, oficializada em abril de 1960.
Copacabana como epicentro dos deputados federais
Os dados indicam uma expressiva concentração em Copacabana, onde viviam 150 deputados. O bairro consolidou-se durante a década de 1950 como uma região elegante, impulsionada pelo crescimento econômico e pela expansão imobiliária. A historiadora Marly Motta, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), destaca que Copacabana era o bairro preferido das pessoas influentes da época, um centro de cultura e lazer.
Entre os moradores estava José Sarney, então um jovem deputado da UDN em seu primeiro mandato, que residia em um apartamento amplo na Rua Bolívar. Outro parlamentar da UDN, Tenório Cavalcanti (UDN), conhecido como “O homem da Capa Preta”, morava na Rua Sá Ferreira, embora sua residência mais conhecida fosse em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. O imóvel no Rio provavelmente servia para facilitar seus compromissos políticos e jornalísticos.
Mario Tamborindeguy (PSD) também escolheu Copacabana para residir, num apartamento no Edifício Chopin, na Avenida Atlântica, que permanece com a família até hoje. A ex-deputada estadual Alice Tamborindeguy recorda a infância no local e as facilidades do bairro, incluindo a proximidade com o mar e o Copacabana Palace.
Leia também: Bahia se destaca no turismo de luxo com Salvador e litoral entre os destinos preferidos
Fonte: soupetrolina.com.br
Leia também: São Paulo, Paraná e Minas lideram processos por violência política contra a mulher
Fonte: curitibainforma.com.br
Bairros vizinhos e outros endereços de parlamentares
Além de Copacabana, outros bairros com significativa presença de deputados incluíam o Centro (46), Flamengo (31), Botafogo (20), Ipanema (20), Laranjeiras (15) e Leblon (14). No Flamengo, figuras como Jânio Quadros, Carlos Lacerda e Antônio Carlos Magalhães (ACM) mantinham residência. Jânio residia na cobertura de um prédio com vista para a Baía de Guanabara, enquanto Lacerda ocupava uma cobertura na Praia do Flamengo, local que sofreu modificações controversas durante seu mandato.
O endereço de Lacerda foi omitido no caderno da Câmara, possivelmente por questões de segurança após o atentado sofrido em 1954. Marcos Guimarães, morador do mesmo prédio, relata os efeitos da presença de Lacerda na rotina do edifício, incluindo reforço na segurança e a construção de um escritório improvisado. Após a cassação dos direitos políticos de Lacerda em 1968, ele mudou-se para Copacabana.
Impactos da mudança para Brasília e hábitos dos parlamentares
A transferência da capital provocou resistência entre os deputados, que não desejavam deixar o Rio, uma cidade onde viviam com suas famílias e mantinham laços locais, diferente da relação que posteriormente estabeleceram com Brasília. Alguns parlamentares chegaram a morar em hotéis do Centro, como o Hotel Serrador, por questões financeiras e pela proximidade com a Câmara dos Deputados, que funcionava no Palácio Tiradentes.
Curiosamente, alguns dividiam o mesmo apartamento apesar de pertencerem a partidos rivais. Por exemplo, Antônio Carlos Magalhães (ACM) e Alaim Mello, representantes da UDN e PTB respectivamente, dividiam residência na Rua Marquês de Abrantes. Essa convivência atesta as dinâmicas políticas da época, diferentes do atual grau de polarização.
Leia também: Bancada da Bala é lançada com a promessa de reavaliar sistema carcerário
Fonte: gpsbrasilia.com.br
Marly Motta destaca que, ao contrário do que ocorreu com Brasília, o Rio era mais que local de trabalho para os deputados; era a cidade onde viviam e se integravam à vida cotidiana. Ruy Castro, em seu livro “A noite do meu bem”, reforça essa percepção, mostrando que os parlamentares frequentavam os mesmos espaços públicos que os moradores, como praias, teatros e estádios, além de estarem acessíveis para o eleitorado.
A cultura, a política e a urbanização na capital do país
Copacabana, além de bairro residencial, era um centro cultural vibrante, com forte presença da bossa nova, cinema novo e uma vida noturna intensa, que atraiu a classe média e figuras influentes. O arquiteto Sérgio Magalhães ressalta a diversidade de funções do bairro, que oferecia serviços, lazer e moradia integrados.
A mudança para Brasília só se consolidou nos anos 1970, durante o regime militar, junto com debates sobre a fusão da Guanabara com o Estado do Rio, consumados em 1975. Esse processo marcou o fim da era em que o Rio sediava o poder federal e alterou o cenário político e administrativo da cidade, que passou a desempenhar um papel diferente no contexto nacional.

