Uma Iniciativa Transformadora
A Coordenação de Cooperação Social da fiocruz, em parceria com o Movimento Negro Unificado do Rio de Janeiro (MNU-RJ), lançou uma cartilha voltada para a promoção da saúde antirracista. Essa publicação tem como objetivo fornecer ferramentas e recursos para moradores e profissionais que atuam em favelas e periferias do Rio, com o intuito de combater o racismo em ambientes públicos e de convivência. O material apresenta orientações práticas, análises e contribuições de especialistas das áreas de saúde, educação, segurança e moradores locais, e já pode ser acessado para download.
O evento de lançamento ocorreu em abril, durante um seminário que reuniu pesquisadores, profissionais de saúde, moradores de favelas e ativistas do MNU-RJ no Instituto Social Acemades, localizado em Vicente de Carvalho, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A programação incluiu a exibição do documentário “Nzila: Favela, Ancestralidade e Saúde Antirracista”, que enfatiza a ancestralidade como pilar das lutas por dignidade e justiça nas comunidades.
Documentário e Debates Enriquecedores
O documentário “Nzila”, que significa “caminho” em Bantu, foi produzido no âmbito do projeto Saúde na Favela e visa divulgar as tecnologias sociais que emergem dos saberes populares e do conhecimento científico. Durante a mesa de debates, Heitor Silva, coordenador da Educação de Jovens e Adultos da Fiocruz, e outros especialistas discutiram a importância de ações integradas para promover a saúde antirracista nos territórios.
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“É essencial que as ações clínicas sejam acompanhadas por políticas que reconheçam a realidade do racismo que muitos moradores enfrentam”, afirmou Miriam de Oliveira, psicóloga e promotora popular de saúde antirracista, coordenadora do projeto na Vila Aliança. Ela ressaltou que, apesar da violência diária nas favelas, muitos moradores ainda não identificam essa violência como uma questão racial.
Vanda de Souza, coordenadora do MNU no Espírito Santo, destacou a presença predominante de mulheres no projeto, que buscam não apenas cuidar, mas também lutar por seus direitos em um contexto de violência cotidiana. “Essa formação é importante para que compreendam que o cuidado é uma responsabilidade coletiva”, afirmou.
Fortalecendo a Comunidade e a Luta Antirracista
João Batista, coordenador do MNU-RJ, enfatizou a relevância de fortalecer espaços de educação e saúde nas favelas, lembrando que a luta por direitos é contínua. “Devemos honrar aqueles que lutaram antes de nós, pois as dificuldades enfrentadas hoje são menores do que as do passado”, declarou ele durante a mesa de debates.
O seminário foi interativo, permitindo que os participantes compartilhassem suas experiências e a importância da luta antirracista em suas vidas. Para encerrar, o grupo Música na Calçada, formado por alunos da Escola de Música de Manguinhos, apresentou um repertório autoral e popular.
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Expectativas e Novos Ciclos de Formação
A cartilha “Saúde na Favela na Perspectiva Antirracista” é resultado do ciclo formativo promovido pelo projeto e abrange diagnósticos das sete favelas envolvidas: Manguinhos, Jacarezinho, Rocinha, Vila Cruzeiro, Cidade Alta, Mangueirinha e Vila Aliança. O material não apenas ilustra as especificidades de cada território, mas também evidencia desigualdades estruturais, como a diferença na expectativa de vida entre áreas da cidade, destacando a necessidade de uma abordagem mais justa e inclusiva nos serviços de saúde.
Leonardo Brasil Bueno, coordenador do projeto na Fiocruz, destacou que “cada favela possui suas identidades e histórias únicas, e precisamos dar voz a elas através de uma abordagem humana, que valorize o esforço de seus moradores e profissionais”. A cartilha destina-se a ser uma ferramenta valiosa para profissionais de saúde, professores e moradores, promovendo práticas antirracistas e a defesa dos direitos humanos.
Desafios e Conflitos nas Comunidades
O ano de 2025 trouxe desafios significativos para o projeto, com operações policiais letais que afetaram diretamente a rotina das comunidades, interrompendo aulas e fechando clínicas. Um dos episódios mais críticos ocorreu em outubro de 2025, no Complexo da Penha, resultando em 122 mortes e causando um impacto psicológico profundo nos moradores.
A cartilha é também um reflexo dessas experiências, apresentando uma análise das realidades enfrentadas nas favelas e a urgência de soluções que considerem as especificidades de cada local. “Os dados mostram que 80% dos usuários do SUS se autodeclaram negros, um grupo que enfrenta taxas alarmantes de morbimortalidade”, comentou um dos especialistas envolvidos no projeto.
Projeto de Formação Antirracista
O projeto busca formar promotores populares de saúde com uma abordagem antirracista, visando fortalecer redes de solidariedade e acesso à informação. Além disso, oferece um curso online gratuito sobre letramento racial para trabalhadores do SUS, com o objetivo de sensibilizar e capacitar profissionais para lidar com as questões raciais dentro do sistema de saúde. Já são cerca de 30 mil alunos formados nas duas edições do curso.
Essa formação, com dois módulos que totalizam 30 horas, aborda a intersecção entre saúde e racismo, promovendo um compromisso ético com a equidade racial e o direito à saúde para todos.

