A Nova Profilaxia Pré-Exposição e seu Impacto na Luta Contra o HIV
No início de 2026, surgiram boas notícias para a prevenção do HIV. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o lenacapavir, um medicamento injetável que, administrado a cada seis meses, oferece uma proteção quase total contra a infecção. Desenvolvido pela Gilead Sciences, o lenacapavir representa uma nova alternativa na profilaxia pré-exposição (PrEP), que já é disponibilizada no Sistema Único de Saúde (SUS) através de comprimidos diários. Embora esses comprimidos sejam altamente eficientes, muitos enfrentam dificuldades de adesão a esse tratamento. Contudo, o custo elevado do novo medicamento é um obstáculo significativo.
Nos Estados Unidos, o tratamento com lenacapavir pode ultrapassar 28 mil dólares anuais (aproximadamente R$ 150 mil na cotação atual). No Brasil, a definição de preços ainda não foi divulgada, mas a Fiocruz estabeleceu um acordo com a Gilead para explorar a possibilidade de transferência de tecnologia para que a produção local se torne viável.
Atualmente, o país apresenta um aumento alarmante de novos casos de HIV, o que torna o acesso a essas novas possibilidades de tratamento uma realidade ainda distante. A situação foi destacada por Veriano Terto Jr., vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) e doutor em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
A Importância das PrEPs de Longa Duração
Contar com uma gama mais ampla de métodos de prevenção é fundamental para atender às diferentes necessidades e escolhas da população. Cada pessoa possui um perfil único, e sua fase de vida, bem como sua abordagem em relação à sexualidade e afetividade, podem influenciar suas decisões sobre prevenção. Ter mais opções de proteção, incluindo alternativas diferenciadas como o lenacapavir, é crucial.
Embora a PrEP em comprimidos tenha se mostrado eficaz, muitos usuários abandonam o tratamento. Estudos indicam que a desistência pode ultrapassar 40%, evidenciando a necessidade de desenvolver alternativas para aqueles que não se adaptam ao método oral. A prevenção combinada, que envolve o uso de diferentes métodos para engajar mais pessoas, é essencial. Dessa forma, injeções como o lenacapavir são altamente efetivas, oferecendo um nível de proteção semelhante ao fornecido pelo uso de preservativos, com risco de infecção extremamente baixo.
O Acesso Atual à PrEP no Brasil
Por ora, a PrEP está acessível a todos que possuem vida sexual ativa e que buscam prevenção através do SUS. O processo inclui testagens para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e, após um aconselhamento, os medicamentos são disponibilizados. Em várias localidades do Brasil, a PrEP pode até ser enviada pelo correio ou retirados em máquinas do metrô, como já ocorre em São Paulo.
No entanto, a ignorância a respeito desse tratamento ainda é um grande desafio. Muitas pessoas, incluindo profissionais de saúde, não têm informações precisas sobre a PrEP, o que pode comprometer a orientação adequada a pacientes. É crucial aumentar a conscientização, especialmente entre os jovens e os trabalhadores da saúde. Entretanto, o cenário conservador atual dificulta o debate aberto sobre saúde sexual e reprodutiva, resultando em muitos potenciais beneficiários que permanecem desinformados.
Além disso, a logística de acesso à PrEP ainda apresenta obstáculos: muitas cidades carecem de serviços que ofereçam essa prevenção, contribuindo para a desistência por parte de quem mora longe dessas localidades.
Críticas à PrEP como Política Pública
As críticas à utilização da PrEP como um recurso de saúde pública muitas vezes estão ligadas ao conservadorismo que permeia a sociedade. Abordagens mais modernas e científicas são frequentemente substituídas por juízos moralistas que descreditam a PrEP, considerando-a um gasto com comportamentos considerados imorais. No entanto, é crucial entender que a PrEP é uma estratégia de cuidado que envolve aconselhamento sobre ISTs e testagens, promovendo a proteção tanto do indivíduo quanto de seus parceiros. O que de fato incentiva comportamentos irresponsáveis é a hipocrisia, visto que as pessoas têm diversas formas de expressar sua sexualidade.

