Reconhecimento histórico no coração da Glória
O quilombo ferreira diniz, situado no bairro da Glória, em Janeiro (RJ), tornou-se o primeiro quilombo do estado a ser oficialmente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), conforme a Portaria nº 135/2023. Essa conquista foi anunciada durante a 114ª Reunião do Conselho Consultivo do patrimônio cultural, realizada em 22 de setembro. Com essa decisão, o quilombo passou a integrar o Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos, um registro que valoriza bens ligados às comunidades quilombolas e sua trajetória.
Um território que carrega gerações e memórias
Mais do que um simples espaço residencial, o Quilombo Urbano Ferreira Diniz é um lugar de resistência, memória e afirmação da identidade afro-brasileira. A história do quilombo remonta à década de 1950, quando Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados, chegou ao local acompanhada de seu marido, Antônio Dias Pessanha. Desde então, o território foi se consolidando como um espaço de convivência entre gerações e hoje abriga cerca de 70 pessoas, todas ligadas às famílias Ferreira e Diniz.
No centro do quilombo, um quintal reúne atividades que mantêm viva a cultura local: crianças jogam futebol, moradores praticam capoeira e celebrações comunitárias acontecem em meio a árvores frutíferas que remetem ao ambiente rural, mesmo estando na região central do Rio. O casarão neoclássico, que compõe esse cenário, foi construído no início do século 20 e hoje está dividido em apartamentos, funcionando como testemunha material da história da comunidade.
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Cultura e tradição que fortalecem laços
O cotidiano do quilombo é marcado pela cultura, esporte e convivência. Organizações como a Fundação Internacional de Capoeira Angola no Rio de Janeiro e o Instituto Aluandê Capoeira Angola promovem atividades ligadas à capoeira, história e audiovisual. Além disso, o time de futebol B20 FC, formado por moradores, participa de campeonatos em diferentes comunidades, incentivando crianças e jovens a se envolverem no esporte.
As confraternizações são momentos importantes para reforçar laços entre moradores, familiares e amigos, mantendo vivas as tradições locais. A culinária também desempenha papel central nesse processo. Todas as sextas-feiras, Aparecida Ferreira, conhecida como Tia Cida, prepara uma feijoada tradicional, acompanhada de uma roda de samba. Essa iniciativa, criada em 2023 para ajudar nas despesas da comunidade, tornou-se uma fonte de renda e uma forma de aproximar visitantes, conferindo maior visibilidade ao quilombo.
Um marco no reconhecimento dos quilombos urbanos
Durante a reunião do Conselho Consultivo, Érida Ferreira, presidente da Associação da Comunidade do Quilombo Urbano Ferreira Diniz, ressaltou que o quilombo é o segundo no Brasil a receber o tombamento e o primeiro em contexto urbano. Esse fato coloca a comunidade na vanguarda do debate sobre o significado e a preservação dos territórios quilombolas.
Para Érida, o tombamento representa um compromisso com a garantia dos direitos da comunidade. “Acredito que esse seja um novo começo, que reconheça as comunidades quilombolas como um futuro ancestral e possível”, afirmou.

