Castelos que contam a história do Rio e da Região Serrana
O Castelo do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, tem chamado atenção com sua construção inspirada na arquitetura medieval. Previsto para ser inaugurado em julho de 2027, o complexo promete se juntar a outras construções históricas espalhadas pela capital e pela Região Serrana do estado, onde castelos centenários guardam narrativas que remontam ao Brasil imperial.
Um exemplo emblemático está na serra fluminense: o Castelo São Manoel, cuja história tem início na década de 1820. Dom Pedro I demonstrava interesse pelas terras de Corrêas, hoje distrito de Petrópolis, conhecido pelo clima ameno e pela Mata Atlântica ao redor. O local recebeu o nome do padre Correia, antigo proprietário da fazenda na região. Apesar das tentativas do imperador em adquirir essas terras, ele acabou optando por uma propriedade vizinha, que anos depois se tornou a cidade de Petrópolis. Após a morte do padre, o Barão de Teffé, figura destacada na Guerra do Paraguai, comprou a área. Em 1920, seu filho, Oscar de Teffé, ergueu o castelo em estilo inglês, em homenagem ao herdeiro Manoel.
Influências europeias e arquitetura singular
Na mesma época, o Castelo de Itaipava foi construído em Petrópolis, projetado pelos arquitetos Lucio Costa — que mais tarde assinaria o Plano Piloto de Brasília — e Fernando Valentim, a pedido do barão J. Smith de Vasconcellos. Inspirado em castelos europeus visitados pelo barão, o projeto combina o estilo medieval em alvenaria com materiais trazidos de Portugal, França e Itália. Vinte famílias europeias participaram da obra, que se destaca pelo uso de pedras portuguesas, ardósia francesa e mármore de Carrara.
Petrópolis, fundada por Dom Pedro II, possui várias construções desse gênero, que vão além da estética. A mestranda em Arquitetura e Patrimônio pela Uerj, Carolina Freitas, explica que os castelos, em sua maioria feitos de pedra, eram estruturas fortificadas com torres estratégicas para vigilância e defesa, refletindo uma narrativa de proteção e status.
O Castelo de Itaipava e a história da Villa Itararé
Hoje, o Castelo de Itaipava funciona como hotel e espaço para eventos, além de ter servido de cenário para produções televisivas, como o remake da novela “Guerra dos Sexos” em 2012. Diferente dos outros castelos da cidade, o palacete Villa Itararé, construído em 1904, é revestido em pedra e figura como uma das edificações mais imponentes do Centro Histórico. Embora existam rumores de que tenha sido desmontado na Alemanha e remontado em Petrópolis, não há comprovação dessa história. Para Carolina Freitas, o apelido “castelinho” atribuído pelos moradores deve-se à sua composição em pedra e à imponência localizada no coração da cidade.
Novos usos e conservação dos castelos
A preservação dos castelos é um desafio constante. O Castelo do Museu Histórico Ferreira da Cunha, em Petrópolis, está sendo reformado para reabrir ao público no próximo ano. O espaço será um complexo cultural com exposições, restaurantes e áreas para eventos. Fundado em 1957 pelo médico e museólogo Sérgio Ferreira da Cunha, o museu guarda peças raras, como capacetes da guarda imperial e armaduras de samurais. O projeto, conduzido pelo Megadiverso Instituto Cultural, visa aproximar o público da experiência de conhecer um castelo, algo pouco acessível para a maioria.
Na capital, o Palácio da Ilha Fiscal, construído em estilo neogótico por Dom Pedro II em 1889, permanece como um dos símbolos do passado imperial, sendo aberto para visitação via barco a partir do Espaço Cultural da Marinha. Já o Castelo Valentim, no bairro de Santa Teresa, chama atenção desde 1879. A residência, reformada em 1930, hoje abriga um condomínio, mas continua sendo ponto turístico por sua arquitetura e história.
Desafios da conservação e memória urbana
O Rio já teve muitos castelos, mas a falta de conservação e a urbanização fizeram com que muitos fossem demolidos, como a Casa Raunier e a Casa Colombo. O Castelinho do Flamengo, construído em 1918 em estilo eclético, enfrenta o desgaste do tempo e o abandono, funcionando atualmente apenas no térreo como espaço cultural.
O escritor Rafael Bokor, idealizador do aplicativo Passeio Carioca, destaca que conhecer a história dessas construções é fundamental para preservar e valorizar o patrimônio arquitetônico da cidade. A memória dos castelos é parte do tecido cultural e urbano do Rio, revelando camadas de sua formação e das influências que moldaram sua paisagem.

