Impactos da Crise Financeira e das dívidas
A Compass, que atua no setor de gás e energia e possui participação na Comgás, fez sua estreia na bolsa brasileira no dia 11 de setembro. Este movimento representa mais uma tentativa da Cosan, controladora da Compass, de superar a crise financeira que a empresa enfrenta há mais de dois anos.
A história da crise na Cosan, holding focada em infraestrutura e energia, começou de forma discreta, impulsionada por decisões estratégicas da antiga administração entre o fim de 2022 e o início de 2023. Nesse período, a empresa já lidava com um elevado nível de endividamento, resultado de investimentos em expansão e aquisições, que rapidamente se tornaram insustentáveis.
Com o avanço de 2024, as dívidas se tornaram um fardo pesado, e a companhia começou a enfrentar dificuldades financeiras, operacionais e estratégicas, complicando ainda mais sua situação no mercado.
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A Estratégia de Uso de Dívidas na Cosan
O uso de dívidas como ferramenta para investimento foi um dos fatores que contribuíram para os problemas atuais da Cosan. Um episódio marcante ocorreu no quarto trimestre de 2022, quando a empresa decidiu adquirir uma participação significativa na Vale, com o intuito de investir em empresas consolidadas em setores nos quais o Brasil possui vantagens competitivas. Essa decisão levou a uma elevação de 30% na dívida bruta da companhia, que atingiu R$ 70,7 bilhões.
A expectativa era que a valorização das ações da Vale, juntamente com o recebimento de dividendos, gerasse retornos e permitisse à Cosan influenciar as decisões da mineradora. No entanto, o desempenho da Vale em 2024 foi decepcionante, com uma queda de 23,2% nas ações devido à desvalorização de 15% no preço do minério de ferro no mercado internacional.
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Além disso, o aumento da taxa básica de juros no Brasil encareceu a dívida adquirida para a compra da participação na Vale. Assim, o investimento começou a apresentar custos maiores do que os retornos esperados, forçando a Cosan a reavaliar sua estratégia. Em abril de 2024, a empresa anunciou a venda de mais de 33 milhões de ações da mineradora, levantando cerca de R$ 2 bilhões, numa tentativa de reduzir seu endividamento.
Desafios na Raízen
Outro desdobramento significativo ocorreu com a Raízen, criada em 2011 como uma parceria entre a Cosan e a Shell. A empresa, que fez sua estreia na bolsa em 2021, seguiu uma estratégia semelhante de expansão acelerada. Contudo, a partir de 2024, a Raízen também enfrentou desafios para manter seu modelo, impactada pela alta das taxas de juros e por eventos climáticos que afetaram sua produtividade agrícola.
No ano-safra 2023/24, a Raízen reportou um lucro líquido de R$ 614,2 milhões, uma queda de 75,5% em relação ao ciclo anterior. No ciclo seguinte, a empresa registrou um prejuízo de R$ 4,2 bilhões. Dados mais recentes indicam um prejuízo acumulado de R$ 19,8 bilhões nos primeiros nove meses do ano-safra 2025/26, levando a Raízen a solicitar recuperação extrajudicial em março deste ano, com dívidas que superam R$ 65 bilhões.
O IPO da Compass como Solução
Para enfrentar a crise financeira, a Cosan optou pelo IPO da Compass. Ao contrário de outras operações similares, o objetivo aqui não foi a expansão, mas sim o reforço do caixa e a redução da pressão financeira sobre a holding. Com essa movimentação, a Cosan viu sua participação na Compass cair de 88% para cerca de 75%. A estratégia, portanto, visa estabilizar a empresa em um cenário econômico adverso, repleto de desafios e incertezas.

