Inclusão Masculina na Luta Contra a Violência
Em 2025, a cada 24 horas, cerca de 12 mulheres foram agredidas no Brasil, o que resulta em aproximadamente 4.558 vítimas de violência em um ano, de acordo com uma pesquisa da Rede de Observatórios da Segurança. Esse levantamento abrange nove estados monitorados: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. Especialistas entrevistados pela Rádio Nacional alertam que essa realidade é impulsionada pelo machismo estrutural, e por isso, é fundamental incluir os homens na construção de soluções que promovam um maior engajamento masculino no combate à violência de gênero.
Um estudo realizado pela ONU Mulheres e pelo Instituto Papo de Homem revela que 81% dos homens e 95% das mulheres consideram o Brasil um país machista. O psicólogo Flávio Urra, que se dedica à reeducação de autores de violência, observa que, enquanto as mulheres têm avançado ao legitimar diversas pautas sociais, os homens parecem estagnados em visões ultrapassadas sobre masculinidade e família. “Muitos homens ainda buscam o modelo de família e de mulher que simplesmente não existe mais”, afirma Urra.
A Dinâmica Familiar e Seus Impactos
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O psicólogo e terapeuta familiar Alexandre Coimbra Amaral aponta que as dinâmicas familiares moldam a visão de mundo de crianças e adolescentes. Ele compara a família a uma nação, onde aprendem normas e valores, influenciando suas percepções sobre o que é ser homem. Quando a cultura familiar se limita a um padrão tradicional, pode perpetuar formas de pensamento que favorecem a violência. Amaral explica que a criação de um ambiente familiar que ensina a dominação e a submissão pode resultar em agressões.
“É crucial que o diálogo dentro da família seja aberto e crítico. Os homens precisam questionar como suas criações moldaram suas visões e comportamentos”, sugere Amaral. Ele salienta que esse questionamento deve incluir reflexões sobre os prejuízos que essa identidade tradicional trouxe à sua vida.
Construindo Novas Identidades
Peu Fonseca, educador parental, defende a criação de uma nova identidade social que evite a violência. “É hora de ensinar nossos meninos a gostar, e não odiar meninas”, destaca ele. Essa mudança requer que pais e responsáveis compreendam que o papel de cuidar vai além do controle, envolvendo acolhimento e diálogo. Fonseca é pai de quatro filhos e acredita que os adultos devem ser flexíveis na educação, orientando as crianças enquanto as preparam para o mundo.
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O consultor Felipe Requião enfatiza que tanto a família quanto a escola devem ser protagonistas na formação de uma masculinidade saudável. “É vital que não se reforcem estereótipos como ‘homem não chora’ ou que não se envolvam nas tarefas domésticas”, observa Requião. A nova geração de meninas já se apropria do espaço que desejam ocupar, e é fundamental que os meninos também sejam estimulados a cuidar de si e dos outros.
O Papel Transformador da Escola
Um estudo da ONG Serenas constatou que sete em cada dez professores já presenciaram situações de sexualização e silenciamento contra meninas nas escolas. A psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello acredita que as instituições educacionais têm um papel crucial no letramento de gênero e na intervenção em ciclos de violência familiar. “As escolas são uma oportunidade de quebrar a repetição de padrões de violência que se perpetuam de geração para geração”, comenta.
A coordenadora-geral de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas do Ministério da Educação (MEC), Thaís Luz, ressalta que a colaboração entre escolas, famílias e comunidades é fundamental. “A educação básica deve ser um espaço de transformação, promovendo respeito, equidade e resolução pacífica de conflitos”, afirma. Luz sugere que a formação dos professores deve incluir temas sobre gênero para prepará-los para lidar com essas situações no cotidiano escolar.
Combate ao Machismo nas Redes Sociais
Com a crescente presença de discursos misóginos nas redes sociais, Alexandre Coimbra Amaral alerta que essas plataformas têm se tornado um espaço de perpetuação da masculinidade tóxica. Um levantamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro apontou que 90% dos canais do YouTube identificados em 2024 com conteúdo misógino ainda estão ativos. “As redes sociais promovem uma masculinidade violenta e perversa”, afirma o psicólogo.
Contudo, ele acredita que é possível reverter essa situação por meio do diálogo e da educação nas redes. Campanhas como #ElesPorElas e #MeToo têm mostrado a eficácia de engajar homens na promoção da igualdade de gênero. Para que a mudança ocorra, é essencial que o uso das redes sociais seja direcionado para a educação e conscientização sobre as questões de gênero, e para a criação de um espaço seguro e acolhedor para todos.

