América Latina: Refúgio de Investimentos em Tempos de Incerteza Global
Os ativos da América Latina têm se destacado como um porto seguro para investidores em mercados emergentes, em um cenário global repleto de volatilidade. Impulsionados principalmente por um grupo de países exportadores de petróleo e pelo menor impacto das tensões no Oriente Médio, esses ativos ganharam relevância nas carteiras de investimentos. A combinação de altos preços de petróleo e a resiliência da região torna-a um ponto de atração, mesmo diante de riscos percebidos pelos investidores.
Desde o início da guerra no Irã, moedas latino-americanas, incluindo o real brasileiro e o peso argentino, se valorizaram em relação ao dólar, diferenciando-se de outras moedas emergentes. Títulos em dólares de países ricos em petróleo, como Equador e Colômbia, apresentaram um desempenho notável, assim como a dívida em moeda local colombiana, atraindo a atenção dos investidores.
O recente fracasso das negociações entre os Estados Unidos e o Irã em firmar um acordo de paz pesou sobre o clima do mercado, elevando a demanda por ativos considerados refúgios. Os investidores mostram-se cautelosos, mas acreditam que as posições na América Latina poderão resistir a diferentes cenários geopolíticos. “Nossas apostas mais seguras têm se concentrado na América Latina”, afirma Anthony Kettle, gestor sênior de portfólio de mercados emergentes na RBC BlueBay, que destaca Argentina e Colômbia como promissoras.
Jack McIntyre, que supervisiona cerca de US$ 44 bilhões em ativos globais de renda fixa na Brandywine Global Investment Management, concorda que a região se beneficiará da diversificação das fontes de energia por parte das economias asiáticas e do crescente interesse norte-americano. Ele menciona que a estratégia de investir em títulos em moeda local é uma abordagem favorável no contexto atual.
A postura política de alguns líderes latino-americanos em relação ao governo de Donald Trump também tem influenciado decisões de investimentos. A abordagem mais ativa dos EUA, incluindo ações contra a Venezuela e Cuba, poderá impactar os mercados de crédito da região. Além disso, a América Latina se destaca por ter algumas das mais altas taxas de juros reais do mundo, o que torna o carry trade uma estratégia atraente para os investidores, que buscam tirar proveito da diferença entre as taxas de juros.
O BlackRock Investment Institute mantém uma perspectiva positiva em relação aos títulos de mercados emergentes em moeda forte, ressaltando que um índice importante favorece exportadores latino-americanos de commodities e energia. Estratégias que consideram a crescente demanda por minerais críticos, impulsionada pela inteligência artificial, também estão em foco, conforme mencionado pelos estrategistas da instituição.
Além disso, as ações latino-americanas têm superado seus concorrentes em mercados emergentes. Um índice MSCI que acompanha essas ações apresenta uma alta de aproximadamente 3% desde o início do conflito, contrastando com uma queda de cerca de 4% no índice geral de ações de países em desenvolvimento. Embora os fluxos para a dívida tenham registrado saídas de US$ 2,2 bilhões, as ações conseguiram atrair cerca de US$ 1,4 bilhão, evidenciando o suporte contínuo das commodities e o apelo relativo da região.
Entretanto, a América Latina ainda enfrenta desafios significativos. As altas taxas de juros no Brasil têm pressionado os balanços corporativos, levando algumas empresas a situações financeiras delicadas. Além disso, as incertezas em torno das eleições presidenciais em vários países, como a recente reavaliação de crédito na Colômbia, que enfrentou um rebaixamento em função de preocupações fiscais, trazem riscos adicionais. O Chile, que é um importador de energia, teve sua moeda e títulos afetados negativamente.
Katrina Butt, gestora de portfólio de dívida de mercados emergentes na AllianceBernstein, menciona que existem tanto vencedores quanto perdedores na região, destacando que os exportadores de petróleo se beneficiarão do preço elevado do petróleo, independentemente das condições de cessar-fogo. Ela prefere investir em dívida soberana de países como Colômbia, Argentina e Panamá.
Recentemente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) expressou preocupações de que os mercados emergentes se tornaram mais suscetíveis a mudanças no sentimento global de risco, especialmente devido à crescente dependência de financiamentos de instituições não bancárias. Essa realidade, segundo analistas, poderá impactar a estabilidade financeira da região.
No curto prazo, a ação de desmonte de posições de hedge provocou um aumento considerável nas classes de ativos. No entanto, Kettle permanece cauteloso em assumir posições de longo prazo sem que haja uma evidência mais clara de que o cessar-fogo se sustente e leve a uma desescalada abrangente. “Uma das lições dos últimos eventos é que choques geopolíticos geram dispersões significativas nos mercados emergentes”, conclui.

