Reflexões sobre ‘Friends’
O roteirista Adam Chase, responsável por um dos maiores sucessos da TV americana, “Friends”, compartilha suas memórias e aprendizados em entrevista ao GLOBO. Quando jovem, Chase, que tinha apenas 22 anos na época, viveu uma situação difícil ao ver seu primeiro trabalho, a série “Phenom”, ser cancelada após pouco tempo no ar, mas essa experiência se transformou em um trampolim para sua carreira. “Só porque estava disponível, consegui um emprego em ‘Friends’. Esperava que desse certo e, até hoje, não posso acreditar”, afirma.
Ao longo de sua trajetória na série, que durou de 1994 até 2004, Adam não apenas contribuiu como roteirista, mas também agregou à sua função de produtor executivo por quatro anos. Ele fará uma participação no Rio2C, um evento dedicado à criatividade que ocorrerá entre os dias 26 e 31 de maio na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, onde discutirá, ao lado de Fábio Porchat, o painel “Friends & Porta dos Fundos: Amizade e riso como linguagem universal”. Para Chase, essa ideia de universalidade é fundamental no atual cenário de streaming e redes sociais. “Quando escrevo sobre algo verdadeiro e pessoal, é mais fácil para as pessoas se identificarem”, analisa.
A Mudança de Perspectiva ao Longo dos Anos
Chase acredita que a narrativa de “Friends” foi moldada por suas experiências pessoais após a faculdade. No entanto, ele demonstra uma visão crítica em relação a algumas escolhas feitas na série. “Se pudesse refazer, provavelmente não teríamos seis atores brancos. Sou uma pessoa diferente agora, 30 anos depois. Como o comediante Jerry Seinfeld mencionou, quando a sociedade muda, nós mudamos também”, pondera.
A série, embora criticada sob novas demandas sociais, ainda mantém sua relevância. Dados do National Research Group mostram que 60% da Geração Z prefere conteúdos clássicos a novos lançamentos. As filhas de Adam refletem esta tendência. Sua filha de 12 anos adora “Modern Family”, enquanto a mais nova aprecia “Três é Demais”, o que, segundo ele, se justifica pelo desejo de continuidade. “As pessoas não querem que programas bons terminem rapidamente; elas desejam revisitar esses universos e se aprofundar nos personagens”, explica.
O Desafio da Indústria Atual
Chase, que também foi roteirista da série “Mom”, observa a dificuldade enfrentada por novos profissionais na área: “Você não está apenas competindo com roteiristas experientes, mas também com universitários que produzem conteúdo autêntico e criativo em casa. É um desafio se destacar em meio a tantas vozes”, ressalta. Para ele, a única solução é investir em narrativas frescas e surpreendentes.
Com 140 episódios de “Friends” em seu currículo, Adam acredita que, de alguma forma, incorporou um pouco de cada personagem em sua própria vida. “Havia uma necessidade quase obsessiva de fazer piadas, como Chandler, e a lealdade intensa de Joey. A essência livre de Phoebe e o lado controlador de Monica também coexistem em mim”, declara. Ele considera que para o sucesso da série, era essencial entender cada um dos seis protagonistas. “Se você não conseguisse escrever com a voz de todos, o programa não teria durado”, afirma.
A Gênio da Comédia: Matthew Perry
Chase tem memórias especiais de Matthew Perry, que interpretou Chandler e faleceu em outubro de 2023 aos 54 anos. “Ele era um verdadeiro gênio”, recorda. “Era como ter outro roteirista na equipe. Ele tinha uma habilidade única de dar vida às falas, e nós frequentemente escrevíamos linhas específicas só para ver como ele as interpretaria”. Matthew também se destacava em trazer sugestões criativas, fazendo de suas interpretações algo inconfundível.
O roteirista relembra com carinho os ensaios, onde os atores, ao apresentarem suas versões, muitas vezes surpreendiam a todos, criando um ambiente colaborativo e efetivo no set. Chase, que migrou de Nova Jersey para Los Angeles com o intuito de atuar, acabou encontrando sua verdadeira paixão na escrita. “Percebi que não era bom o suficiente como ator, e foi nesse momento que decidi explorar a escrita”, finaliza.

