Dúvidas sobre Cortes de Juros em Meio ao Conflito
O conflito no Oriente Médio trouxe incertezas ao cenário econômico brasileiro, levantando questões sobre o futuro das taxas de juros. Míriam Leitão destaca que, apesar da escalada do conflito, a expectativa do mercado ainda aponta para um corte na taxa Selic, que atualmente está em 15% ao ano, para 14,5% na próxima reunião. No entanto, essa previsão é cercada de questionamentos, especialmente com o agravamento da situação no Oriente Médio. Já Rogério Ceron ressalta que, até o momento, a guerra não deve influenciar a decisão do Banco Central.
Os economistas se deparam com o desafio de prever a duração e os efeitos do conflito, considerando sua relação com o preço do petróleo e a taxa de câmbio. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu que o conflito pode se estender entre quatro e cinco semanas, mas o impacto econômico pode ser duradouro.
Efeitos da Alta do Petróleo na Inflação
O temor crescente entre investidores é que uma alta contínua nos preços do petróleo resulte em pressões inflacionárias no Brasil, especialmente em um momento em que a inflação mostrava sinais de desaceleração, baixando de 5,06% em fevereiro de 2025 para 4,44% em janeiro deste ano. A possibilidade de os juros permanecerem altos por mais tempo ou de uma redução lenta das taxas pode ser uma estratégia do Banco Central para manter a trajetória de queda da inflação.
Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, explica que a escalada nos preços do petróleo, dado que o Brasil importa uma parte significativa de sua energia, pode provocar um aumento imediato nos preços, refletindo na gasolina e nos custos de frete, o que, por sua vez, afetaria os preços ao consumidor.
Pressões do Mercado e Expectativas sobre a Selic
O ambiente de tensão internacional tende a valorizar o dólar. Se a aversão ao risco aumentar, a moeda americana pode se valorizar, tornando produtos importados mais caros e criando uma nova camada de pressão inflacionária, conforme aponta Marco Mecchi, diretor de investimentos da Azimut Brasil Wealth Management. No entanto, Mecchi não acredita que o conflito atual seja um fator que adie o início do ciclo de cortes de juros no Brasil, mantendo a expectativa de que a Selic seja reduzida em 0,5 ponto percentual em futuras reuniões, embora sem possibilidade de aceleração.
Por outro lado, Araújo sugere que o Copom pode retardar os cortes nos meses seguintes, iniciando as reduções apenas quando a situação do petróleo e do câmbio estiver mais estável. Ele argumenta que, com o tom conservador adotado pelo Conselho, eventos assim podem alterar a trajetória esperada dos cortes.
Projeções de Impacto na Inflação
O economista Yihao Lin, da Genial Investimentos, estima que uma alta de 10% no preço do petróleo ao longo de 12 meses poderia adicionar 0,5 ponto percentual ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Com base em modelos de previsão do Banco Central que analisam um horizonte de 18 meses, o impacto seria de aproximadamente 0,3 ponto, elevando a projeção de inflação de 3,2% para 3,5%.
Lin acredita que, na próxima reunião, o Banco Central pode ainda optar por reduzir os juros em 0,5 ponto percentual, pois a pressão inflacionária parece estar reduzindo, com o índice oficial convergindo para a meta de 3%.
Expectativas Futuras e Cenários Possíveis
O parâmetro utilizado por Lin se baseia no conflito anterior de junho de 2025, que durou cerca de 12 dias, sem grandes alterações nos preços globais. Caso a atual tensão se prolongue, as repercussões sobre as taxas de juros e a política monetária poderão ser mais significativas. Para abril, novas incertezas podem surgir se surgirem evidências de uma interrupção prolongada na oferta de petróleo.
A economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória, também acredita que o Banco Central deve reduzir a Selic de 15% para 14,5% na próxima reunião, mas reconhece que a atual situação de conflito traz incertezas sobre os cortes subsequentes programados para os meses de abril e maio, quando espera-se novas reduções de 0,5 ponto percentual.

