População da Groenlândia Reitera Suas Prioridades
A Groenlândia, a maior ilha do mundo, voltou a ser tema de discussões globais após o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ressurgir com a ideia de que os EUA deveriam “comprar a Groenlândia” por razões estratégicas. Essa proposta, que gerou críticas internacionais em 2019, voltou a ser mencionada em discursos recentes de Trump, reacendendo as tensões no território autônomo do Reino da Dinamarca.
Em resposta a essas declarações, o primeiro-ministro da Groenlândia orientou a população a manter kits de emergência prontos, incluindo água potável, alimentos não perecíveis e até armas de caça com munição. Essa recomendação gerou apreensão entre os aproximadamente 56 mil habitantes da ilha.
Birger Poppel, climatologista da Universidade da Groenlândia, expressou sua preocupação com a possibilidade de uma maior influência dos EUA na região. “Nos desdobramos para garantir acesso gratuito à educação e à saúde. Observando os Estados Unidos e, especialmente, as intenções de Donald Trump, percebo que isso representa um mundo diferente. Eu não quero isso para mim”, afirmou Poppel.
Retorno da Proposta de Compra
Trump já havia demonstrado interesse em adquirir a Groenlândia em 2019, quando fez uma oferta de cerca de US$ 100 milhões e prometeu investir na região, promovendo a riqueza local e valorizando a cultura dos groenlandeses. A proposta, amplamente rechaçada na época, foi comparada à compra do Alasca, realizada em 1868, quando os EUA adquiriram o território da Rússia por US$ 7 milhões — um dos maiores acordos imobiliários da história americana.
Contudo, a ideia de Trump contraria princípios fundamentais do direito internacional. Como um território sob soberania dinamarquesa, a Groenlândia não está à venda, e seus líderes afirmam que a população deve decidir seu próprio futuro. Apesar disso, rumores indicam que a nova estratégia de Trump pode incluir a realização de um referendo local para verificar se os moradores estariam dispostos a negociar.
“Nós não somos um ativo que pode ser adquirido. Nós somos um povo — esta é a nossa terra”, declarou uma residente groenlandesa em uma entrevista ao programa Fantástico.
Aumento do Interesse dos EUA e Questões Ambientais
Trump argumenta que a Groenlândia é vital para a segurança nacional dos EUA, devido à sua localização estratégica no Ártico e à abundância de minerais essenciais para indústrias de alta tecnologia, como baterias de carros elétricos e equipamentos militares. Sob a camada de gelo que derrete rapidamente, há reservas de recursos considerados críticos para a economia global nas próximas décadas. O degelo acelerado — três vezes mais rápido que a média global — também abre novas rotas marítimas e facilita o acesso às áreas de mineração.
A crise climática transformou o Ártico em um campo de disputa entre potências, como China, Rússia, Canadá, países da OTAN e os próprios Estados Unidos. Para Washington, a Groenlândia representa uma posição estratégica no controle dessas rotas.
Memórias de Colônia e Resistência Local
A desconfiança da população em relação às ambições americanas é histórica. Por séculos, a Groenlândia foi explorada como uma colônia pela Dinamarca, que impôs sua religião, controlou a economia e erradicou tradições inuítes. Essas marcas ainda permanecem. Atualmente, metade do orçamento groenlandês depende de repasses do governo dinamarquês, e serviços públicos como saúde e educação gratuitas são sustentados por essa verba.
Quatro dos cinco partidos do Parlamento groenlandês defendem a total independência, embora reconheçam que ainda não há uma base econômica sólida para isso. Nesse contexto, a proposta de Trump é vista como um retrocesso colonial, onde a troca de um tutor por outro, ainda mais distante culturalmente, não é bem-vinda.
Com a situação atual em evidência, a Groenlândia reafirma sua determinação em preservar seus direitos e seu modo de vida, destacando a importância da educação e da saúde gratuitas, que são fundamentais para o futuro da população local.

