Um Tributo aos Bambas no Coração do Rio
Na casa onde Zé Renato cresceu, o samba estava sempre presente. A influência era forte, especialmente por conta de seu pai, Simão de Montalverne, que faleceu em 1988. Simão, um jornalista e cronista da boemia carioca, organizava serestas que atraíam grandes nomes do samba, como o cantor Sylvio Caldas. Essas lembranças afetivas serviram como base para o show intitulado “Samba e Amor”, que faz parte do projeto “Terças no Ipanema”, realizado no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, durante este mês de março.
No dia 10 de março, Zé Renato apresentou a segunda das quatro atuações programadas, onde cantou com paixão e respeito pelo samba, destacando sua devoção aos grandes bambas do gênero. O show contou com a participação especial de Paulinho Moska, que trouxe um brilho a mais à apresentação.
Com Moska, Zé interpretou a única composição que assinam juntos, “Cama da Ilusão”, um samba que ressoa no passado glorioso da velha guarda, e também homenageou a célebre música “Dupla Genial”, escrita por Monarco e Delcio Carvalho. Essa canção reverência os pioneiros do samba, Alcebíades Barcelos e Armando Marçal, fundamentais na construção do samba carioca nos anos 30.
Uma Noite de Emoções e Memórias
Antes do bis, onde Zé e Moska encantaram o público com “Desde que o Samba é Samba”, de Caetano Veloso, os dois artistas puxaram o partido alto “Cabô”, que faz parte do álbum mais iluminado da carreira solo de Zé Renato. Apesar de um deslize na letra da canção, a atuação de Moska trouxe um toque de alegria e descontração à noite.
O show também contou com a presença do percussionista Paulino Dias e do violonista Carlinhos Sete Cordas. Juntos, eles apresentaram um repertório que passeou por várias vertentes do samba, incluindo uma música inédita chamada “A Santa do Engenho Novo”, composta por Zé Renato e Leonardo Lichote, que foi estrategicamente apresentada antes de uma imersão em “365 Igrejas”, um samba clássico de Dorival Caymmi, lançado há 80 anos.
Reconhecido como um dos maiores cantores brasileiros dos últimos 50 anos, Zé Renato, a voz do grupo Boca Livre, continua a expandir seu alcance musical. O show “Samba e Amor” leva o nome de uma canção de Chico Buarque, lançada em 1970, e foi aberto com uma emocionante interpretação de “Duas Horas da Manhã”, de Nelson Cavaquinho. A profundidade emocional da canção foi realçada pelo choro da cuíca tocada por Paulino Dias.
Clássicos do Samba e Exaltação ao Pioneirismo
Durante a apresentação, o afrosamba “Consolação”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, se destacou como um dos momentos mais vibrantes do show. O batuque de Paulino Dias trouxe à tona a ancestralidade do samba, perfeitamente complementada pelos violões de Carlinhos Sete Cordas e Zé Renato, que entraram em harmonia nas partes seguintes da canção.
No entanto, Zé Renato se mostrou um pouco menos à vontade ao interpretar “Siri Recheado e o Cacete”, de João Bosco e Aldir Blanc. Por outro lado, ele ficou em casa ao relembrar o xará Zé Ketti, que foi representado com três canções no show: “A Voz do Morro”, “Malvadeza Durão” e “Diz Que Fui Por Aí”.
A apresentação também incluiu clássicos da parceria entre Noel Rosa e Vadico, como “Feitio de Oração” e “Feitiço da Vila”, tornando o show “Samba e Amor” uma experiência envolvente e significativa, refletindo mais uma vez o excelente trabalho de curadoria de Flávia Souza Lima no projeto “Terças no Ipanema”. A conexão de Zé Renato com o samba é algo que transcende o profissional, é um amor enraizado na família e na cultura brasileira.

