Uma Análise Profunda do Funk
Thiagson, natural do sertão baiano e criado na periferia de São Paulo, apresenta uma reflexão instigante em seu livro “Putologia Avançada — O Funk de Pernas Abertas: Como Sexo, Política e Música se Misturam”. O autor, que sempre teve o funk como parte de sua vida, revela sua nova perspectiva após se aprofundar na música contemporânea. Como ele mesmo menciona, “tudo aquilo que todo mundo diz que é uma porcaria fácil de fazer não é nada disso”. Thiagson destaca a complexidade e o planejamento envolvidos na criação do gênero.
O autor compara o funk a uma obra de Stockhausen, onde a combinação de elementos visuais e sonoros cria um simbolismo profundo, desafiando a ideia de que o funk é uma expressão simples ou superficial. Em sua obra, ele propõe decifrar o uso do sexo no funk como uma ferramenta de resistência e afirmação identitária para os jovens periféricos, ao mesmo tempo em que analisa as inovações musicais dos produtores e MCs que emergem das favelas.
Desilusão com a Academia
Thiagson começa seu livro expressando a frustração com a educação musical formal, onde passou mais de uma década estudando música clássica, enquanto sua identidade musical enraizada na cultura periférica foi desvalidada. Ele recorda que, em suas aulas, a pressão para se adequar a um ideal europeu fez com que ele sentisse vergonha de sua origem e do repertório que trazia consigo. “A universidade é racista e colonialista”, afirma ele, apontando que, enquanto outras áreas de estudo, como ciências sociais, discutem abertamente questões de raça e gênero, a musicologia permanece em grande parte alheia a esses debates.
Para Thiagson, mesmo a etnomusicologia se esquiva de analisar a riqueza cultural do funk, frequentemente rotulado como machista e vulgar. Ele recorda que, para ser aceito entre os musicólogos, sentiu a necessidade de saturar seu trabalho com partituras, uma estratégia que, segundo ele, serve como um mecanismo de legitimação. “O funk é música, e ainda assim, a musicologia apenas olha para a música do homem branco europeu”, critica.
O Funk e Suas Raízes
Curiosamente, o funk também se alimenta da tradição musical europeia. Thiagson menciona a famosa faixa “Bum Bum Tam Tam”, que sampleia uma obra de Johann Sebastian Bach, ressaltando que muitos dos artistas que utilizam essas referências o fazem por amor à música e não com o objetivo de se mostrar intelectuais. Ele aponta que a ligação entre funk e música clássica é uma subversão das expectativas, onde o conhecimento não é um pré-requisito para a apreciação musical.
A professora Mylene Mizrahi, que participou da análise da tese de Thiagson, elogia a abordagem do autor, que busca construir uma teoria musical para o funk. Mylene reconhece a necessidade de discutir o papel das mulheres no gênero, apontando que as canções frequentemente privilegiam a voz masculina. Para Thiagson, a letra de muitos funks é uma resposta à crescente afirmação das mulheres e do empoderamento feminino, mas também reflete as complexidades da masculinidade negra na periferia.
Funk e Moralidade
Explorando a dualidade entre a popularidade do funk putaria e a crescente religiosidade nas favelas, Thiagson argumenta que o funk choca porque se opõe a uma moralidade estabelecida. “O funk é um gênero que quer chocar. E isso só faz sentido se existe uma moralidade, é preciso ter os valores morais muito bem assimilados”. Essa tensão é exemplificada por produtores que, embora criem músicas de conteúdo sexual, lutam com a aceitação em seus próprios lares. Ele propõe que essas expressões são uma forma de explorar as contradições sociais e de identidade no Brasil contemporâneo.
Redes Sociais e a Nova Era do Conhecimento
Thiagson também compartilha sua trajetória nas redes sociais, onde encontrou uma nova forma de expressão e conexão com o público. Ele destaca a importância dessas plataformas para compartilhar suas ideias e desmistificar a produção acadêmica, que muitas vezes permanece isolada. Ele vê nas redes um espaço para o engajamento e a disseminação de conhecimento, desafiando a percepção de que a academia é o único espaço para a produção de saber.
O livro “Putologia Avançada” não só reflete a jornada pessoal de Thiagson, mas também se propõe a desmistificar o funk como uma expressão musical rica e complexa, capaz de provocar reflexões sobre identidade, política e estética. A obra, que será lançada durante a noite de autógrafos na Livraria Drummond, promete instigar debates e trazer à tona discussões sobre a verdadeira essência do funk, muito além dos estereótipos.

