O Impacto da Violência na Política Latino-Americana
O tema da criminalidade na América Latina sempre despertou meu interesse, especialmente no que se refere aos crimes midiáticos e às organizações criminosas. Desde a infância, com o lançamento do filme ‘Cidade de Deus’, percebi a relação complexa entre pobreza, proibição, tráfico de drogas, corrupção e política. O meu consumo de mídia, particularmente em streaming, foi fortemente moldado por essas questões. Filmes como ‘Tropa de Elite’ e séries como ‘Narcos México’ e ‘Narcos Colômbia’ tornaram-se algumas das minhas preferências, não por acaso, mas devido a um algoritmo que entendeu rapidamente meu interesse por narrativas de violência.
Este fenômeno não é isolado. Para muitos latino-americanos, a temática da violência está entre os tópicos mais relevantes da atualidade. Embora eu tenha crescido longe das comunidades mais pobres, que enfrentam guerras diárias e o tráfico, a violência sempre se fez presente nas notícias, nos telejornais e, claro, no cotidiano.
Com isso, chego ao ponto sobre as recentes vitórias políticas que refletem essa realidade. Um exemplo notável é José Antonio Kast, que foi eleito presidente do Chile em 2025. Conhecido como o “Bolsonaro Chileno”, Kast utilizou um discurso contundente contra o crime e a imigração para conquistar a confiança dos eleitores, tornando-se uma das figuras mais votadas na história chilena. Segundo o sociólogo Eugenio Tironi, o medo da criminalidade, frequentemente associado à imigração de venezuelanos, foi decisivo para seu sucesso nas urnas. Cast apresenta uma postura “linha dura” em relação ao combate à violência.
Pandemia de Violência e Percepções Públicos
Não é a primeira vez que um político conquista popularidade através de um discurso rígido sobre o crime. A recente operação policial que deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, mostrou que a violência gera um efeito simbólico que pode impulsionar a popularidade de líderes, como foi o caso do governador Cláudio Castro. Ele viu seu reconhecimento aumentar, mesmo quando a eficácia da operação foi questionada por especialistas. O subsecretário de inteligência da Polícia Militar, Daniel Ferreira de Souza, declarou que o resultado prático da operação foi “ínfimo” no que diz respeito ao combate ao Comando Vermelho, mas o efeito simbólico foi inegável.
Esses eventos repercutem nas redes sociais, com imagens da operação se espalhando rapidamente via Instagram e YouTube. O resultado é uma narrativa que glorifica ações violentas e justifica uma postura ainda mais agressiva contra o crime, similar à que a extrema-direita brasileira tenta adotar, equiparando o crime organizado a terrorismo.
A Nova Doutrina de Segurança de Trump
Esses acontecimentos também se entrelaçam com a nova doutrina de segurança nacional do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, que destaca três aspectos principais: o reavivamento da Doutrina Monroe, a intenção de apoiar “governos amigos” no combate ao narcotráfico e a comparação entre organizações criminosas e terroristas. A lógica por trás disso é clara: um governo alinhado com a narrativa de que o narcotráfico é um problema de segurança nacional poderia justificar intervenções militares em países da América Latina, como já foi sugerido no contexto da Venezuela.
A relação entre Trump e as grandes corporações de tecnologia dos EUA, como a META, que controla plataformas como Instagram e Facebook, também se torna relevante. Há uma preocupação crescente com a possibilidade de que esses algoritmos moldem a opinião pública, ao priorizar conteúdos que reforçam essa narrativa de combate à violência. Um estudo italiano discute como esses algoritmos atuam na formação da opinião pública, ressaltando que as redes sociais são influenciadas por interações entre usuários e conteúdos, criando uma dinâmica complexa entre informação e decisão.
A Influência dos Algoritmos no Debate Político
Como a experiência da violência se converte em um tema central no debate político? Os índices de criminalidade no Chile, apesar de mais baixos que os do Brasil, geraram uma preocupação significativa entre os cidadãos, onde, segundo a Ipsos, 63% afirmam que crime e violência são suas principais preocupações. O contexto sugere que a extrema-direita, presa a essa narrativa de insegurança, pode adotar estratégias semelhantes àquelas observadas nas interações entre políticos e algoritmos nas redes sociais.
Embora a ideia de uma intervenção externa no Brasil pareça improvável, a combinação de uma política de segurança rígida e o papel das tecnologias pode levar a um aumento de operações policiais dramáticas e à intensificação do debate público sobre a violência. Portanto, parece claro que o algoritmo do cidadão brasileiro, assim como o meu, vai continuar trazendo o tema da violência urbana para o centro do discurso eleitoral.

