O Brasil Como Destino Imperdível
A recente onda de turistas argentinos que escolheram o Brasil como destino de férias gerou repercussões significativas na mídia argentina. Os programas de televisão do país vizinho têm expressado preocupação com a saída em massa de cidadãos rumo ao território brasileiro, impulsionada pela diferença cambial, preços mais acessíveis e uma oferta superior de serviços. Essa mudança de comportamento se intensificou durante o verão de 2026, consolidando uma tendência que já se desenhava nos anos anteriores e, agora, chega a um ponto crítico para o setor turístico da Argentina.
Nesta nova realidade, o Brasil não é apenas desejado por suas belezas naturais, mas também por se tornar uma opção econômica para a classe média argentina. O resultado? As praias brasileiras estão repletas de “hermanos”, enquanto destinos tradicionais na Argentina, como Mar del Plata e Pinamar, enfrentam uma crescente desvalorização, com preços que afastam seus próprios cidadãos.
Segundo uma reportagem da agência ANSA, baseada em dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), a Argentina registrou um déficit histórico no turismo internacional em 2025, resultado do aumento das viagens de argentinos ao exterior. Entre janeiro e novembro do ano passado, mais de 11 milhões de argentinos deixaram seu país, enquanto menos de 5 milhões de turistas estrangeiros visitaram a Argentina, criando um saldo negativo superior a 6 milhões de pessoas. O Brasil, por sua vez, emergiu como o principal destino, com cerca de 3,1 milhões de turistas argentinos.
Por que o Brasil é a Escolha Mais Acessível?
A questão central gira em torno da inflação crescente na Argentina, que torna o turismo interno um verdadeiro luxo. Conversas com turistas em balneários brasileiros, que vão de Florianópolis ao Rio de Janeiro, revelam que o custo de vida para viajantes argentinos está superando o do Brasil. Um exemplo claro é o aluguel de uma “carpa” (tenda de praia) em Mar del Plata, que chega a custar cerca de 80.000 pesos argentinos por dia. Em locais mais nobres como Pinamar, esse valor pode ultrapassar 120.000 pesos.
A frase mais comum nas agências de turismo de Buenos Aires tem sido: “Com esses preços, vai mais barato ir para o Brasil”. Essa constatação é confirmada por turistas que desfrutam das areias brasileiras, onde o custo para alugar uma estrutura é, na maioria das vezes, inferior ao aluguel de apartamentos inteiros em localidades como o Rio de Janeiro, que varia entre 25 a 50 dólares por diária, dependendo da região.
A alimentação também tem se mostrado um fator decisivo. Argentinos em Florianópolis comentam que comer fora é “muito mais acessível” no Brasil. Além disso, a facilidade de uso do sistema de pagamento instantâneo brasileiro, o Pix, permite que os turistas consigam taxas de câmbio favoráveis, evitando as cotações oficiais que são menos vantajosas e os altos custos de cartões de crédito.
A Questão dos Serviços na Praia
A migração em massa para o Brasil também desencadeou um debate cultural sobre a infraestrutura das praias. Na Argentina, existe uma forte cultura de “serviço completo” nos balneários, que oferecem wi-fi, cofres, vestiários e recreação infantil, tudo inserido no aluguel da barraca. Contudo, muitos argentinos tentam justificar os preços altos com a ideia de que o Brasil não oferece o mesmo nível de serviço, reduzindo as praias brasileiras a “barraquinhas”.
No entanto, essa visão é contestada por turistas que cruzaram a fronteira. A liberdade de consumir à beira-mar, com garçons servindo comidas e bebidas a preços mais justos, acaba superando as estruturas rígidas e caras dos clubes de praia argentinos.
Uruguaios também Buscam o “Barato” no Brasil
Esse fenômeno não se restringe apenas aos argentinos. O Brasil também virou um destino atrativo para os uruguaios, que enfrentam um custo de vida considerável. Em 2026, a presença uruguaia disparou, com muitos optando por longas viagens de ônibus de até 20 horas para chegar ao litoral de Santa Catarina. Entrevistas com esses turistas revelam que, mesmo com balneários luxuosos como Punta del Este, o Brasil se destaca pelos preços mais acessíveis. Uma turista uruguaia em Florianópolis destacou que os custos em Punta del Este são proibitivos em comparação ao que se gasta no Brasil.
O Reconhecimento da Derrota Competitiva
A situação se agravou de tal forma que até autoridades argentinas começaram a reconhecer a perda na “guerra do turismo”. O Secretário de Turismo da Argentina admitiu que a falta de competitividade e os altos preços em destinos como a Patagônia estão levando os turistas a optarem por viagens para o exterior. O governo de Javier Milei tem apostado em políticas de “céus abertos” e desregulamentação, na esperança de reduzir os custos internos a longo prazo. Contudo, a realidade do mercado para a temporada de 2026 já está clara: competir com o Brasil parece ser uma tarefa impossível.
O verão de 2026 será lembrado como o momento em que a macroeconomia mudou o cenário das férias na América do Sul. O Brasil, com suas praias exuberantes, clima tropical e moeda desvalorizada frente ao dólar, mas ainda estável em comparação à inflação argentina, se tornou a escolha lógica para os turistas argentinos. Entre pagar 100 dólares por dia em Mar del Plata ou metade disso no Brasil, a decisão é inegável. O turismo interno da Argentina, portanto, enfrenta uma crise, enquanto o Brasil se mostra acolhedor e desejado.

