O Impacto do ‘Affordability’ na Política Brasileira
O Brasil enfrenta um paradoxo econômico: apesar de indicadores positivos, como o crescimento do PIB e a inflação sob controle, muitas pessoas não sentem melhorias em suas vidas. Isso é o que aponta Felipe Nunes, cientista político e diretor da Quaest, em entrevista ao podcast ‘O Assunto’. Ele destaca o conceito de ‘affordability’, que se refere à capacidade real das pessoas de arcarem com os custos de vida, como um fator crucial para entender esse fenômeno.
A pesquisa revelou que, mesmo com aumento nas rendas, muitos brasileiros sentem que o dinheiro não é suficiente para cobrir suas necessidades. ‘As pessoas comentam que, embora suas rendas tenham aumentado, o custo de vida associado a esse aumento disparou’, explica Nunes. Essa percepção, aprofundada em conversas informais realizadas pela Quaest, trouxe à tona três fatores principais que desvendam a desconexão entre os dados econômicos e a realidade vivenciada pela população.
Principais Fatores de Desconexão
O primeiro fator destacado é o endividamento. Os relatos das entrevistas mostram que as famílias estão cada vez mais sobrecarregadas com dívidas de cheque especial, cartões de crédito e empréstimos consignados. ‘Muitas pessoas enfrentam problemas sérios com dívidas’, afirma Nunes, ressaltando a pressão que isso exerce sobre o orçamento familiar.
O segundo fator é a frustração em relação ao consumo. Mesmo com melhorias na renda, muitos ainda se vêem impossibilitados de acessar produtos e experiências que trazem bem-estar. ‘A promessa de desfrutar de bens como picanha e cerveja não se concretizou para muitos’, conclui o pesquisador, enfatizando a desconexão entre expectativas e realidades.
Por último, o impacto das apostas online também tem mostrado um efeito significativo. Gastos com jogos, muitas vezes desapercebidos, têm corroído a renda familiar. ‘Muitos homens apostam escondido, perdendo dinheiro sem que as famílias se deem conta disso’, observa Nunes, revelando como essas apostas silenciosas podem afetar as finanças de uma casa.
Consequências nas Eleições de 2026
A combinação de endividamento, frustração com o consumo e gastos com apostas ajuda a explicar a falta de alinhamento entre a saúde econômica do país e o ânimo dos eleitores. Essa situação tem um impacto direto nas eleições, especialmente entre os eleitores independentes, que representam cerca de 30% do total e não possuem uma posição política definida. Segundo Nunes, esse grupo será vital nas próximas eleições.
A percepção do custo de vida tem mais peso para esses eleitores do que os dados econômicos oficiais. Se o orçamento não fecha, mesmo os melhores indicadores macroeconômicos não conseguem gerar apoio político. ‘A conta não está fechando’, conclui Nunes, refletindo a frustração de eleitores que não conseguem ver melhorias em suas vidas.
Dados Relevantes da Quaest
As pesquisas da Quaest também revelaram que a desaprovação do governo Lula está em 51%, com apenas 44% de aprovação. Além disso, 56% dos entrevistados já definiram seu voto para a presidência, enquanto 43% afirmam que ainda podem mudar de ideia. É importante notar que 48% dos brasileiros acreditam que a economia piorou nos últimos 12 meses.
O podcast ‘O Assunto’, produzido pelo g1, tem alcançado grande audiência, com mais de 168 milhões de downloads desde sua estreia em agosto de 2019. O episódio de hoje traz insights importantes sobre como a economia impacta diretamente a política e as expectativas dos brasileiros.

