O Crescimento do Pop Vintage
A cinebiografia de Michael Jackson, o lançamento do novo álbum de Madonna, sua campanha com a Dolce & Gabbana e o show de Shakira em Copacabana têm algo em comum: o pop vintage tornou-se uma aposta sólida no entretenimento global. O fenômeno não é por acaso, mas sim resultado de uma estratégia cuidadosamente planejada, sustentada por dados que demonstram o valor crescente do passado na indústria.
A apresentação de Shakira na icônica praia carioca, realizada no último sábado (2), marca um novo pico financeiro na carreira da artista colombiana. Sua turnê intitulada ‘Las Mujeres Ya No Lloran’ arrecadou impressionantes US$ 421,6 milhões, vendendo 3,3 milhões de ingressos em 86 shows. Esse feito garantiu a Shakira o Guinness World Record de turnê de maior bilheteira por um artista latino na história.
O show gratuito no Rio, parte do projeto Todo Mundo no Rio, segue os passos de grandes nomes como Madonna, que atraiu 1,6 milhão de pessoas em 2024. A apresentação de Shakira contou com a participação de 15 marcas patrocinadoras, entre elas a cerveja Corona, que será a principal patrocinadora nas próximas edições, e o Santander, que promove ativações via plataforma Smusic. O investimento da prefeitura do Rio foi de R$ 20 milhões, com um impacto econômico estimado de R$ 776 milhões na cidade. O valor do cachê da artista, no entanto, permanece em sigilo.
O Retorno do Pop e a Onda Latina
Shakira ganhou notoriedade em 1995 com o álbum ‘Pies Descalzos’, mas conquistou o Brasil apenas com ‘Laundry Service’ (2001) e o sucesso de ‘Whenever, Wherever’, cujo clipe, filmado nos Andes, se tornou um ícone na MTV. O hit ‘Hips Don’t Lie’, em colaboração com Wyclef Jean, consolidou seu status global.
A artista, que fala português, carrega consigo a essência do pop dos anos 90, com elementos que remetem ao estilo dos anos 80: ídolos individuais, performances vibrantes e vídeos marcantes.
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Atualmente, a influência latina vai além do pop. Pela primeira vez em décadas, as produções culturais dos Estados Unidos estão competindo com as em espanhol no mercado brasileiro. O artista Bad Bunny domina o streaming global pelo terceiro ano consecutivo, enquanto Karol G bateu recordes com sua turnê feminina em 2024. Rosalía esgotou ingressos rapidamente para a LUX Tour 2026, que inclui duas noites no Madison Square Garden. Além disso, a Bienal do Livro de São Paulo terá a Espanha como país convidado em setembro, evidenciando essa mudança cultural.
Daniel Gallego Arcas, diretor do Instituto Cervantes de São Paulo, observa essa tendência como uma transformação na identidade cultural brasileira. “Os brasileiros estão se reconhecendo cada vez mais como parte de uma cultura mais ampla, que mistura influências da Península Ibérica e expressões dos países da América Latina”, comentou à Bloomberg Línea.
Entre Gerações: Passando o Bastão
Para especialistas, esse fenômeno cultural combina dois movimentos demográficos. Aqueles que eram adolescentes durante o lançamento de ‘Thriller’ em 1982 ou que dançaram ao som de ‘Like a Virgin’ em 1984 hoje ocupam a faixa etária com maior poder aquisitivo, conforme análise da consultoria WSGN. Este público tem levado filhos e netos aos shows, transformando a compra de ingressos em um evento familiar que pode envolver até três gerações.
Simultaneamente, a Geração Z revê o pop dos anos 80 através de plataformas como TikTok e Spotify. Estudos do GWI indicam que 50% da Geração Z sente uma nostalgia por décadas que não viveram, e este grupo já considera a música dos anos 90 como seu segundo gênero favorito.
Um exemplo disso é ‘La Isla Bonita’, de Madonna, que voltou a fazer sucesso nas paradas brasileiras em março, impulsionada por uma tendência no TikTok, replicada por artistas como Ivete Sangalo, que também faz parte do legado pop dos anos 90.
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Investimentos e Lucratividade no Setor
James Duvall, chefe de entretenimento da consultoria britânica Futuresource, vê esse fenômeno como uma convergência geracional. Ele esclareceu que a Geração X consome o catálogo por nostalgia, enquanto a Geração Z busca autenticidade em um mundo pré-digital. Isso resulta em um esforço de mercado que cresce entre diversas faixas etárias.
Os fundos de private equity perceberam esta tendência antes do resto da indústria: Bob Dylan vendeu seu catálogo à Universal por US$ 300 milhões em 2020, Bruce Springsteen arrecadou US$ 500 milhões com a Sony em 2021 e a banda Queen realizou a maior venda de catálogo da história em 2024, fechando em US$ 1,27 bilhão.
Dados da Pollstar confirmam essa tendência, com artistas como Oasis e Metallica dominando o ranking global de turnês. A passagem de bastão entre as gerações se dá em público, como evidenciado pelo recente lançamento de ‘Bring Your Love’, um dueto de Madonna com Sabrina Carpenter, que foi interpretado como uma transição de legado entre ícones.
O Retorno dos Clássicos Brasileiros
Os bancos brasileiros também estão cientes desse vasto mercado de nostalgia. Recentemente, o Itaú lançou o Itaú Live, uma plataforma em parceria com a 30e, a maior produtora de entretenimento do país. O acordo prevê mais de 800 shows ao longo de cinco anos e apresenta um catálogo que reflete essa economia nostálgica, com clássicos como ‘Cabeça Dinossauro’ dos Titãs e o retorno do Barão Vermelho com Roberto Frejat.
O Nubank também entrou na onda, adquirindo os naming rights do Allianz Parque em um contrato de US$ 10 milhões anuais até 2044, o que representa o dobro do valor pago anteriormente. Este estádio se tornou um dos principais locais para grandes shows na América do Sul.
Enquanto isso, a Live Nation, a maior produtora global do setor, também está expandindo sua atuação, com projetos como a turnê de retorno do Kid Abelha, após 14 anos de hiato. O Capital Inicial também lançou sua nova turnê, ‘Música Urbana’, com um retorno ao formato elétrico.
O Sucesso de Michael e Madonna
A cinebiografia ‘Michael’, dirigida por Antoine Fuqua e estrelada por Jaafar Jackson, que é sobrinho do cantor, fez história ao se tornar o maior lançamento de um filme biográfico, arrecadando US$ 217 milhões em seu final de semana de estreia. No Brasil, o filme faturou R$ 30,09 milhões, atraindo mais de 1,2 milhão de espectadores em apenas quatro dias.
Enquanto isso, Madonna está se preparando para lançar ‘Confessions on a Dance Floor: Part II’, com uma campanha voltada para o público LGBTQIA+ no app Grindr. Sua presença nas redes sociais e as parcerias com grandes marcas destacam seu papel como uma estrategista de marketing de sucesso. A série autobiográfica da Netflix e a série da Apple TV dedicada à sua vida reforçam a relevância contínua da artista no cenário atual.
O que fica claro é que a nostalgia não é apenas um sentimento, mas sim uma estratégia de monetização cada vez mais eficaz na indústria do entretenimento, com ícones como Michael e Madonna liderando o caminho.

