Tensão no Oriente Médio e Seus Efeitos Econômicos
BRASÍLIA – As recentes falhas nas negociações entre os Estados Unidos e o Irã, acompanhadas pela ameaça do ex-presidente Donald Trump de bloquear o Estreito de Ormuz, reacenderam a preocupação nos mercados globais. Após o posicionamento firme das autoridades iranianas, que reafirmam seu controle sobre a rota, o preço do barril de petróleo superou a marca de US$ 100, refletindo imediatamente nas expectativas econômicas. O impacto sobre a inflação e a atividade econômica se torna palpável, especialmente se as forças americanas seguirem com o plano de fechar os portos iranianos a partir da manhã desta segunda-feira, 13 de novembro.
Especialistas alertam que a intensificação da crise no Oriente Médio, resultando na interrupção de uma das principais rotas do petróleo global, pode acentuar o aumento dos preços dos combustíveis, afetar cadeias produtivas e evidenciar as vulnerabilidades do Brasil, que depende fortemente de diesel e fertilizantes importados.
Expectativas de Escassez de Petróleo
Com o colapso das negociações, a previsão é de que a oferta global de petróleo se agrave. Aproximadamente um quinto do petróleo mundial transita pelo Estreito de Ormuz, e dados da Bloomberg indicam que, devido ao cenário atual, petroleiros estão evitando essa via. No último domingo, o barril de petróleo abriu em alta, superando os US$ 104, enquanto nesta segunda-feira, às 7h20 (horário de Brasília), o preço do petróleo tipo Brent era de US$ 102,20, marcando uma valorização de 7,39%.
David Zylbersztajn, ex-diretor geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e professor no Instituto de Energia da PUC-Rio, destacou que o fechamento do Estreito de Ormuz não afetará apenas a produção de petróleo, mas também o gás natural liquefeito e insumos petroquímicos vitais, especialmente aqueles relacionados a fertilizantes e mineração. “É uma região extremamente sensível, e a imprevisibilidade é uma constante”, alerta Zylbersztajn.
Consequências Diretas na Economia Global
As consequências do fechamento do estreito reverberam por diversos setores. O especialista explicou que, além da energia, áreas como transporte e agricultura também serão severamente impactadas, resultando em uma elevação da inflação. “Os combustíveis têm um peso significativo na inflação global, e os produtos derivados da energia também terão seus preços ajustados. Além disso, os custos de transporte e seguro subirão”, afirma.
As declarações de Zylbersztajn apontam que, se a situação se agravar, os líderes mundiais poderão adotar medidas semelhantes às que foram implementadas durante a pandemia de covid-19, com foco em melhorar a logística e reduzir a dependência de importações.
Possíveis Efeitos nas Políticas Comerciais
Thiago de Aragão, CEO da Arko Internacional e consultor de fundos de investimentos, acredita que, embora o momento atual não se compare à excepcionalidade da pandemia, a estrutura do choque econômico é similar. Aragão defende que o Brasil deve intensificar sua “diplomacia comercial” para buscar alternativas que possam aliviar não apenas o fornecimento de petróleo, mas também de fertilizantes. “O etanol poderá se tornar mais competitivo em relação à gasolina, beneficiando os exportadores caso o câmbio se deprecie”, observa.
Se a crise nas negociações entre Irã e Estados Unidos não se resolver rapidamente, Aragão adverte que os efeitos podem se estender até o cenário eleitoral brasileiro, intensificando os impactos econômicos no País. “Decisões que normalmente levariam meses precisam ser tomadas em questão de semanas. O tempo para erros diminui. Se o Estreito de Ormuz for reaberto em 30 a 45 dias, a situação pode ser apenas uma nota de rodapé no final do ano. Contudo, se a crise se prolongar, enfrentaremos uma nova realidade de inflação importada, influencia que poderá ter reflexos diretos até nas eleições de outubro no Brasil.”

