A Jornada do Samba-Enredo
O Carnaval é um dos eventos mais esperados do ano, e o processo que leva um samba-enredo à avenida é fascinante e repleto de etapas. Desde a ideia inicial até a grandiosidade dos carros alegóricos, o caminho é longo e meticulosamente planejado.
O primeiro passo geralmente começa com uma sugestão que, com o tempo, se transforma em um conceito mais elaborado. Isso envolve uma pesquisa minuciosa, onde a sinopse do enredo ganha forma, servindo como guia para a composição do samba. Na sequência, as maquetes e estruturas são criadas, até o momento em que a comunidade se une, vestindo suas fantasias para dar vida ao desfile no sambódromo.
Essa série de ações, que inclui reuniões, leituras e ajustes de última hora, é o que, segundo os especialistas em carnaval, transforma uma ideia em um espetáculo vibrante e cativante.
Processo Criativo: Pesquisa e Curadoria
Recentemente, as escolas Mocidade Alegre e Unidos do Viradouro participaram dessa jornada, respectivamente, em São Paulo e no Rio de Janeiro. O ponto de partida pode ser bastante variado: pode surgir de uma história familiar, um pedido da direção da escola, uma demanda da comunidade ou até uma proposta externa.
Caio Araújo, carnavalesco da Mocidade Alegre, conta que para o Carnaval de 2026, a inspiração veio do filho da homenageada, Léa Garcia, que sugeriu o tema do enredo. Para Caio, é fundamental não apenas acolher a ideia, mas avaliar se ela possui potencial suficiente para se tornar uma narrativa impactante na avenida. Por isso, o papel do enredista é crucial.
A escolha do tema deve considerar uma série de fatores, como a adequação ao calendário da escola, a disponibilidade de fontes e a aceitação pelas pessoas envolvidas. Quando uma sugestão se transforma em um conceito definido, o trabalho se expande. Não é apenas sobre um nome ou um evento; é preciso explorar diferentes ângulos.
Construindo o Enredo
Tiago Freitas, enredista da Império de Casa Verde, revela sua abordagem: ele inicia o processo com uma folha em branco, desenvolvendo subtemas que buscam facilitar a visualização do desfile. A partir desse recorte, questões pertinentes são levantadas: quais histórias serão contadas? Quais imagens podem ser percebidas a uma distância de 50 metros? Quais elementos podem se transformar em trechos do samba?
Com o tema definido, as próximas etapas envolvem a montagem de um arquivo com listas de fontes, prioridades para pesquisa e primeiras leituras que guiarão o desenvolvimento do enredo.
A Importância da Pesquisa
A pesquisa, para os enredistas, é um esforço de curadoria. Como João Gustavo Melo, enredista da Unidos do Viradouro, explica, a pesquisa se baseia no enredo escolhido. É preciso combinar diferentes camadas de informação: bibliografia acadêmica para garantir a precisão histórica; iconografia, como fotografias e filmes, que ajudam a criar alegorias; além de fontes orais e depoimentos que enriquecem o contexto.
Em um exemplo, João menciona que, ao tratar de cultos religiosos, a equipe foi a terreiros na Bahia para entender as práticas religiosas, já que muitas delas só podem ser compreendidas no ambiente em que ocorrem. No caso da Mocidade Alegre, as entrevistas e materiais coletados sobre Léa Garcia foram fundamentais para compreender seu legado e determinar quais cenas e símbolos se tornariam parte do desfile.
Transformando Ideias em Espetáculo
Traduzir o conhecimento adquirido em um espetáculo envolve uma seleção cuidadosa do que pode ser representado. Tanto pesquisadores quanto enredistas filtram o material, buscando elementos que consigam ser informativos e visualmente impactantes. A pesquisa não é uma atividade neutra; é direcionada por questões práticas: o que será visível para o público e o que pode ser efetivamente criado no barracão.
“Tudo que assisto, eu já vou anotando informações que sei que poderei transformar em visualidades para o desfile”, compartilha Caio, ressaltando a importância de estar sempre atento às inspirações.
A Sinopse: Elaboração do Enredo
A sinopse surge como um elo entre a pesquisa e a criação. Ela não é um documento formal, mas sim um guia prático que orienta compositores e carnavalescos. Tiago afirma que transforma leituras em poesia e, a partir daí, gera subtemas que se desdobram em alas e momentos do desfile.
Este documento precisa inspirar o samba, orientar a concepção visual e fornecer justificativas para o Livro Abre Alas. O prazo para a entrega do samba é curto, geralmente cerca de dois meses, o que torna o trabalho ainda mais desafiador.
A partir da escolha do samba, as maquetes, protótipos, estruturas e figurinos começam a ser testados. O barracão se transforma em um espaço de negociações técnicas e estéticas até que tudo esteja pronto. O verdadeiro impacto do que a escola produziu só é percebido quando as fantasias são entregues e os carros saem do barracão.
“Quando começamos a ver o nosso carnaval indo para a rua, é como se estivéssemos vendo nosso filho nascer”, revela Caio Araújo, refletindo sobre a emoção desse processo. É essa trajetória – da sugestão à apresentação – que guiou a Mocidade Alegre e a Unidos do Viradouro em suas performances campeãs, superando os desafios que sempre surgem na pista.

