A Revolução Musical das ‘Chiquinhas’
A figura de Chiquinha Gonzaga, uma das pioneiras da música popular brasileira, continua a inspirar novas gerações. Compositora, instrumentista e maestrina, Gonzaga dedicou sua vida a romper barreiras sociais e a popularizar ritmos como polca, lundu e maxixe, que eram considerados inferiores em sua época. Mais de cem anos após sua obra, sua coragem ainda reverbera na vida de jovens que sonham em seguir carreira na música.
Um exemplo notável disso é a Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga, composta exclusivamente por meninas da periferia do Rio de Janeiro. O projeto, que atende jovens em situação de vulnerabilidade e que fazem parte da rede pública de ensino, já transformou a realidade de muitas instrumentistas ao longo de quase cinco anos de atuação.
Recentemente, as “Chiquinhas” se apresentaram em palcos internacionais, incluindo a aclamada casa de espetáculos Carnegie Hall, em Nova York, recebendo aplausos e reconhecimento do público. Moana Martins, diretora-executiva da orquestra, revela que a iniciativa surgiu para combater a escassez de meninas nos principais naipes de orquestra.
“Nós conhecemos a realidade delas e proporcionamos a chance de sonharem alto. São meninas que aprendem, desenvolvem suas habilidades e continuam a crescer. Com nosso apoio, elas visam a faculdade e oportunidades internacionais”, explica Moana.
Um Projeto Transformador
A orquestra atualmente envolve cerca de mil alunas, com cinquenta delas integrando a orquestra principal. Desde seu início, a demanda tem aumentado, levando a um processo seletivo rigoroso devido à limitação de espaço e recursos. Moana revela: “Estamos sempre em busca de novas talentos, mas não conseguimos atender a todos os cinco mil estudantes que desejam participar.”
Existem 14 polos de formação espalhados pela capital carioca, e o processo é dividido em três níveis. O primeiro foca na aprendizagem de instrumentos de corda, percussão e teclado. As jovens instrumentistas têm a oportunidade de participar de concertos, sob a regência da maestra Priscila Bomfim. Após essa experiência, algumas são capacitadas para ensinar suas colegas.
“O que é mais incrível é a troca de experiências que elas fazem entre si. Esse apoio mútuo é fundamental para o desenvolvimento pessoal e social”, ressalta Moana, enfatizando a importância do coletivo na formação das jovens artistas.
Os recursos para o projeto provêm da Lei de Incentivo à Cultura, a famosa Lei Rouanet, além de doações de empresas privadas. “Ao apresentar o projeto, temos apenas três minutos para explicar todo o seu valor. Muitas vezes, somos interrogadas sobre os custos de um concerto, mas isso vai muito além de uma simples apresentação: as meninas precisam de bons instrumentos e uniformes, além de bolsas para assegurar que possam continuar seus estudos na música”, aponta Moana.
Desafios e Conquistas
Nathaly Joy, flautista de 21 anos, é um exemplo do impacto que o projeto teve em sua vida. “No início, pensei que a música fosse apenas uma fase, mas fui me apaixonando, e a Chiquinha Gonzaga me deu minha primeira oportunidade real no mundo da música”, comenta Nathaly, que se destacou como solista em diversos espetáculos.
A jovem artista, que começou sua trajetória na orquestra há quatro anos, ressalta a importância do trabalho árduo e da dedicação exigidos. “Não é fácil, precisamos estudar muito e nos esforçar ainda mais por sermos mulheres em um ambiente competitivo”, afirma.
Atualmente, Nathaly está cursando o bacharelado em Música na UNIRIO e se dedica a contribuir para a formação de novas talentosas. “Quero passar tudo o que aprendi, porque é fundamental compartilhar conhecimento e ajudar as próximas gerações a alcançarem seus sonhos”, diz empolgada.
Um Sonho em Construção
Após se apresentar em diversas salas de concerto ao redor do mundo, o próximo passo da Orquestra é conquistar seu próprio espaço. Hoje, as instrumentistas ensaiam em um espaço cedido temporariamente, mas já têm planos para o futuro: em 2026, ganharão o Centro Cultural Chiquinha Gonzaga, um local que servirá não apenas como sala de ensaios, mas também como um centro educativo que homenageará a história das mulheres na música.
O governo do Rio de Janeiro já confirmou o espaço, localizado no centro da cidade, próximo à região da Lapa, onde Gonzaga viveu. “Para isso, precisamos de incentivos para adequar o local. Queremos um espaço com isolamento acústico e que atenda as necessidades das meninas. Sonhamos em ser referência para mulheres e educar futuras gerações”, conclui Moana, refletindo sobre o impacto transformador que o projeto proporciona. A Orquestra Chiquinha Gonzaga é um símbolo de esperança e uma plataforma para novas lideranças musicais que desejam fazer a diferença no mundo.

