A Influência de Zema e Deltan nas Estratégias do Novo
Nas últimas semanas, o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do partido Novo, tem se visto na posição de negar repetidamente qualquer intenção de desistir de sua candidatura à presidência. Apesar de o próprio partido ter emitido uma série de notas repudiando essa possibilidade, vozes internas começam a se manifestar a favor de um alinhamento com Flávio Bolsonaro (PL) já no primeiro turno, mesmo sem uma proposta concreta para uma vaga de vice.
Durante reuniões em São Paulo e Brasília, lideranças da região Sul do Novo têm deixado claro que preferem uma aliança nacional com o partido de Valdemar Costa Neto. Entre os que já estão agindo em nível regional, destacam-se o ex-procurador da Lava-Jato, Deltan Dallagnol, que é pré-candidato ao Senado na chapa do senador e ex-juiz Sérgio Moro (PL) no Paraná; o deputado Marcel Van Hatten, também pré-candidato ao Senado, que compõe a chapa de Luciano Zucco (PL) no Rio Grande do Sul; e Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville e pré-candidato a vice-governador na chapa de Jorginho Mello (PL), que busca a reeleição.
Este debate sobre a estratégia para 2026 vai além da escolha de candidatos. Uma reflexão mais profunda surge dentro do Novo sobre os rumos a serem tomados após duas eleições presidenciais aquém das expectativas: em 2018, João Amoêdo obteve apenas 2,5% dos votos, enquanto Felipe d’Avila conquistou apenas 0,47% quatro anos depois. Assim, surge a dúvida: o partido pretende se tornar uma linha auxiliar do bolsonarismo, como defendem Deltan, Van Hatten e Adriano, ou almeja se afirmar como uma alternativa no espectro da direita, capaz de questionar as falhas na trajetória de Flávio e sua família?
Tensões Internas e Estratégias Aparentemente Divergentes
Essa questão tem gerado desconforto entre os estrategistas de Zema, que são favoráveis a um ataque direto a Flávio Bolsonaro, mas encontram resistência e não estão autorizados a seguir por esse caminho. Após participar de manifestações pela anistia a Bolsonaro e a seus aliados condenados em relação aos eventos de 8 de janeiro, o ex-governador observa a ascensão de Renan Santos, pré-candidato a presidente pelo recém-formado partido Missão, que assume um papel de candidato antissistema — função que o Novo pretendia exercitar com seus desafios ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao presidente Lula.
Recentemente, o Missão obteve o registro homologado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em novembro, após o Movimento Brasil Livre (MBL) conseguir o número necessário de assinaturas para a criação de um partido no Brasil. O MBL, fundado em 2014, ganhou força na esteira da operação Lava-Jato e do impeachment de Dilma Rousseff.
Em um evento em São Paulo, ficou evidente que a nova legenda está menos amarrada do que o Novo. Durante a apresentação da candidatura do deputado federal Kim Kataguiri (Missão) ao governo de São Paulo, Renan Santos fez o que Zema não pode: chamou Flávio de “ladrão” e “símbolo da direita corrupta”. Essa abordagem tem mostrado resultados, com os cortes do evento viralizando nas redes sociais e resultados de pesquisas recentes colocando o líder do MBL à frente de Zema na corrida presidencial.
As Implicações da Estagnação de Zema nas Pesquisas
A estagnação nas pesquisas de Zema, potencialmente agravada pelo anúncio da pré-candidatura de Ronaldo Caiado (PSD) à presidência, não alterou a visão de Deltan. O ex-procurador da Lava-Jato acredita que abordar temas como a chamada “rachadinha”, o patrimônio bilionário de Flávio e suas ligações com milícias de ex-assessores pode inviabilizar em definitivo a possibilidade de Zema ser vice na chapa do PL, uma articulação que ele mesmo tem tentado promover.
Desde 2018, quando denúncias envolvendo Flávio ganharam destaque, Deltan adotou uma postura calculada para evitar confrontos diretos com o senador. Mensagens reveladas entre os procuradores da Lava-Jato em 2019, publicadas pelo site Intercept, mostram que Deltan reconhecia as movimentações financeiras de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, como indicativas de um esquema de rachadinha quando Flávio era deputado estadual. Em uma dessas trocas de mensagens, Deltan comenta uma reportagem que relatava os repasses feitos por Queiroz a Michelle Bolsonaro, afirmando: “É óbvio o que aconteceu”. Apesar disso, ele optou por evitar uma posição pública sobre o assunto.
Desde que se filiou ao Novo há três anos, Deltan tem se tornado uma figura de destaque nas decisões partidárias. Seu prestígio é evidente na prestação de contas do partido, recebendo entre 2023 e 2024 um salário de R$ 30,4 mil por mês. Além disso, no ano anterior, a empresa dele, em parceria com a esposa, foi contratada pela sigla por R$ 340 mil para oferecer cursos de formação de lideranças de direita.

