Impactos da Exposição Solar nos Jogos de Futebol Feminino
No final de novembro, durante a COP30 em Belém, líderes e especialistas se reuniram para discutir as mudanças climáticas que ameaçam o futuro do planeta. Enquanto isso, na Arena Gregorão em Contagem, os times Cruzeiro e América estavam em campo, disputando a final do Campeonato Mineiro Feminino. Este jogo, como a maioria dos eventos do torneio, ocorreu às 15h, um horário considerado prejudicial para a saúde das jogadoras. Médicos e meteorologistas alertam para os riscos associados a tal programação, especialmente em um cenário de crescente intensidade de calor e secas.
A dermatologista Rafaella Costa, especialista em infectologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora na PUC Minas, detalha os perigos decorrentes da exposição ao sol. Ela explica que a radiação ultravioleta (UV) é dividida em dois tipos: UVA e UVB. “A radiação UVB atinge seu pico entre 10h e 15h, especialmente ao meio-dia, enquanto a UVA é constante durante o dia. Jogar às 15h significa estar exposto a altos níveis de ambas”, destaca a médica, enfatizando os riscos de queimaduras solares, desidratação e doenças de pele a curto e longo prazos, como o câncer de pele.
A recomendação da especialista é clara: “Usar protetor solar diariamente é fundamental, mesmo em dias nublados, pois a radiação solar pode atravessar as nuvens. Para jogadoras, é crucial reaplicar a proteção durante os intervalos das partidas e optar por produtos que resistam ao suor”. Além disso, Rafaella salienta a importância de uma boa hidratação antes, durante e após os jogos.
A Necessidade de Mudança nos Horários dos Jogos
A idealização de horários em que a radiação solar é menos intensa é uma demanda das jogadoras. Camila Alves, goleira do Cruzeiro, e Gabi Zanotti, atacante do Corinthians, expressaram suas preocupações sobre as partidas realizadas no horário adequado. Camila sugere que a programação futura considere partidas após às 16h, quando a exposição ao sol é significativamente menor, enquanto Gabi ressalta a necessidade de união entre equipes para reivindicar por horários mais seguros.
“Lutamos por melhores horários há anos, mas as decisões são influenciadas pela grade de transmissões de TV”, afirma Zanotti. Essa situação é refletida na Série A1 do Campeonato Brasileiro, onde 27% dos jogos foram realizados às 15h, evidenciando um padrão que precisa ser revisto à luz das recomendações médicas.
O Papel das Mudanças Climáticas
Com as mudanças climáticas em pauta na COP30, o fenômeno do aquecimento global afeta diretamente a segurança das atletas. Lizandro Gemiacki, meteorologista do Inpe, explica que o efeito estufa, exacerbado pelas emissões de gases, gera um aumento considerável na temperatura média, o que leva a fenômenos climáticos extremos. Ele alerta sobre os impactos diretos que isso pode ter, como secas e calor intenso, que podem afetar a saúde das jogadoras durante as competições.
Em Minas Gerais, onde o aumento médio foi de 1,1°C nos últimos 20 anos, as consequências já são visíveis. A exposição das jogadoras a jogos programados em horários críticos para a saúde torna-se ainda mais problemática num estado que já enfrenta fenômenos climáticos severos. “As condições climáticas observadas durante as partidas, como baixa umidade e altas temperaturas, podem ser prejudiciais para atletas”, reforça Gemiacki.
Reação das Entidades do Futebol
Ao buscar respostas sobre a programação dos jogos, a reportagem contatou a CBF e a FMF, mas as respostas foram limitadas. A FMF esclarece que a definição dos horários é uma responsabilidade dos clubes mandantes. Contudo, a situação demanda uma revisão urgente, considerando os riscos à saúde das atletas e a pressão crescente das jogadoras por mudanças.
Portanto, enquanto as discussões sobre a saúde e segurança das jogadoras se intensificam, a necessidade de se adaptar os horários dos jogos de acordo com as recomendações médicas se torna cada vez mais evidente. A união das atletas e a pressão conjunta sobre as entidades do futebol podem ser fatores cruciais para garantir não apenas a saúde, mas também a qualidade do esporte no Brasil.

