Arroz: motor econômico no Litoral Norte e Região Metropolitana
A cadeia produtiva do arroz continua sendo um dos pilares econômicos mais significativos para municípios do Litoral Norte e da Região Metropolitana de Porto Alegre, onde o cultivo e a industrialização do cereal geram impacto direto na economia local. O município de Mostardas lidera com a maior área plantada, totalizando 32,6 mil hectares, seguido por Viamão, com 18,3 mil hectares, e Palmares do Sul, com 14,6 mil hectares. Dados do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) para a safra 2025/2026 indicam ainda que Eldorado do Sul, na Região Metropolitana, soma 11,7 mil hectares plantados, reforçando a importância dessa área para o setor.
Produtividade e beneficiamento nas planícies costeiras
Na Planície Costeira Externa (PCE), que abrange municípios como Viamão, Santo Antônio da Patrulha, Capivari do Sul, Palmares do Sul, Mostardas e Torres, foram cultivados 104,2 mil hectares, com uma produtividade média de 8.189 quilos por hectare. Já na Planície Costeira Interna (PCI), incluindo Tapes, Camaquã, Guaíba, General Câmara, São Lourenço do Sul e municípios da Região Metropolitana como Eldorado do Sul e Barra do Ribeiro, a área plantada atingiu 137,4 mil hectares, com produtividade média superior, de 8.823 quilos por hectare.
Quanto ao beneficiamento, os dados de 2024 do Irga mostram que a PCE processa 464.399 toneladas de arroz, representando 8% do total industrializado no Estado. A PCI, por sua vez, beneficia 1.128.510 toneladas, o equivalente a 20% do volume gaúcho destinado à indústria. No total, o Rio Grande do Sul industrializa cerca de 5,59 milhões de toneladas, posicionando essas regiões como fundamentais não só pelo volume, mas também pela qualidade e produtividade do grão.
Desafios econômicos e pressão nos preços do arroz
Apesar dos resultados positivos na produção e produtividade, impulsionados pelo melhoramento genético e novas tecnologias, o setor enfrenta desafios econômicos importantes. O acúmulo de estoques, decorrente da alta produção, tem pressionado as cotações do arroz. Além disso, a queda do consumo interno e a concorrência com arroz importado de países do Mercosul têm contribuído para a redução dos preços pagos aos produtores.
Virgilio Ruschel Braz, presidente da Cooperativa Arrozeira Palmares e da Associação dos Produtores de Arroz do Litoral Norte (Aproarroz), destaca que em 2024 o fardo era vendido a R$ 158, mas atualmente o preço caiu para R$ 96, uma redução de 37% na área de atuação da cooperativa. Paralelamente, os custos com fertilizantes, combustíveis e financiamentos seguem elevados, comprimindo ainda mais as margens de lucro e levando a uma projeção de redução de pelo menos 10% na área plantada para a safra 2026/2027.
Alternativas para equilibrar oferta e demanda
Frente a esse cenário, o setor aposta na expansão das exportações como caminho para reduzir os estoques e recuperar o equilíbrio entre oferta e demanda. Mercados da América Central já aparecem como destinos relevantes para o arroz gaúcho. A cooperativa conta com cerca de 170 produtores associados, que buscam alternativas para enfrentar o momento difícil.
Flávia Tomita, diretora técnica do Irga, ressalta que a Planície Costeira Interna mantém sua participação significativa na produção estadual, mesmo com pequenas áreas destinadas à cultura em Porto Alegre. Já a Planície Costeira Externa, no Litoral Norte, apresenta condições particulares devido à proximidade com o oceano Atlântico e a Lagoa dos Patos, que influenciam fatores como a salinidade das águas, exigindo monitoramento constante para evitar prejuízos às lavouras.
Diferencial de qualidade com Denominação de Origem
O arroz produzido no Litoral Norte é o único no Brasil a contar com certificação de Denominação de Origem (DO), um diferencial comercial que agrega valor ao produto. Esse reconhecimento decorre das condições climáticas e do solo da região, que proporcionam menor amplitude térmica e favorecem a produção de um grão de alta qualidade, com maior rendimento industrial e percentual superior de grãos inteiros.
Virgilio Braz explica que o arroz com DO pode receber até 15% a mais no preço, comparado a outras regiões. Enquanto outras áreas alcançam índices de grãos inteiros entre 58% e 60%, na região da DO esse percentual ultrapassa 65%, traduzindo-se em ganhos econômicos para indústrias e consumidores. Além disso, a região se destaca pela disponibilidade hídrica, solos adequados e sistemas produtivos cada vez mais diversificados, ampliando sua relevância econômica.
Estação experimental em Morrinhos do Sul fortalece inovação
No município de Morrinhos do Sul, o Irga mantém uma estação experimental que monitora doenças do arroz, considerada um “viveiro de doenças” para testar cultivares e linhagens sob condições favoráveis ao surgimento da Brusone, principal doença do cultivo. Esse trabalho permite identificar precocemente perdas de resistência genética e garantir que apenas variedades adaptadas cheguem ao mercado, protegendo a produtividade e a rentabilidade dos produtores.
Além disso, a região é referência no uso de sistemas de cultivo pré-germinado e no monitoramento da salinidade das águas de irrigação. Flávia Tomita explica que, dependendo das condições climáticas e da influência das águas do mar, pode ser necessária a interrupção temporária da irrigação para evitar danos às lavouras.
Panorama da produção e beneficiamento no Rio Grande do Sul
O Rio Grande do Sul mantém uma diversidade regional na produção de arroz, com destaque para a Fronteira Oeste, Zona Sul, Campanha, Região Central, Planície Costeira Interna e Externa. A área total plantada na safra 2024/2025 somou 970.216 hectares, distribuída entre essas regiões.
Em termos de produção, as regiões registraram números expressivos: a Fronteira Oeste lidera com 2,71 milhões de toneladas, seguida pelo Sul com 1,56 milhão e a Planície Costeira Interna com 1,34 milhão de toneladas. A produtividade média estadual ficou em 9.044 quilos por hectare, com variações regionais que refletem as condições específicas de solo e clima.
O beneficiamento anual é realizado por diversas indústrias espalhadas pelo Estado, com destaque para a Camil Alimentos, Josapar e Pirahy Alimentos, que juntas lideram o processamento do cereal. Essas indústrias são fundamentais para a cadeia produtiva, garantindo que o arroz produzido alcance mercados internos e externos com qualidade.
Esses dados, fornecidos pela Divisão de Assistência Técnica e Extensão Rural (Dater) do Irga, reforçam a importância estratégica do arroz para a economia gaúcha, especialmente para as regiões do Litoral Norte e Metropolitana, que combinam tradição agrícola, inovação tecnológica e potencial para ampliar sua participação no mercado nacional e internacional.

