O impacto do crime organizado na economia do Rio
O crescimento do tráfico de drogas e a presença das milícias no Rio de Janeiro já geram consequências diretas sobre a economia de bairros inteiros. Relatos indicam que empresas estão sendo obrigadas a pagar taxas mensais que chegam a R$ 10 mil. Comerciantes e residentes vivem sob constantes restrições sobre o que podem vender, comprar ou receber dentro das comunidades dominadas.
Um dos locais que exemplifica essa realidade é o distrito industrial de Fazenda Botafogo, situado na Zona Norte do Rio. Originalmente concebido como um polo industrial estratégico para o estado, hoje enfrenta o abandono urbano e a pressão constante dos grupos criminosos, que influenciam diretamente as operações comerciais e a vida dos trabalhadores.
O distrito industrial de Fazenda Botafogo, que foi inaugurado em 1978, é o primeiro desse tipo na cidade. O projeto tinha como objetivo fomentar a instalação de empresas e a construção de moradias para os trabalhadores, buscando fortalecer a economia regional. No entanto, o crescimento descontrolado das comunidades vizinhas e a falta de ação do poder público transformaram o local em um enclave industrial cercado por áreas sob domínio do crime.
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Desafios e limites na atuação das empresas
Atualmente, o distrito ocupa mais de 1 milhão de metros quadrados e possui capacidade para abrigar até 50 empresas. De acordo com informações do próprio distrito, 32 indústrias continuam operando na área, englobando setores como química, petróleo, reciclagem e produção de vidro, gerando cerca de 14 mil empregos diretos. Apesar da localização privilegiada, próxima à Avenida Brasil e a importantes polos comerciais, os empresários enfrentam sérios problemas relacionados à infraestrutura, como a falta de saneamento adequado, coleta de lixo e segurança.
Dados levantados pela equipe do RJ2 indicam que traficantes, vinculados ao Terceiro Comando Puro (TCP), estão exigindo pagamentos mensais que vão de R$ 4 mil a R$ 10 mil de empresas estabelecidas no distrito. Em uma mensagem recebida este ano, um empresário reportou ameaças diretas feitas por criminosos.
Um funcionário de uma dessas empresas comentou sobre uma ameaça recente: “Tivemos novamente aquele incidente chato. Um rapaz veio até a entrada fazendo ameaças e pedindo dinheiro. Ele veio na sexta-feira e retornou hoje.” A situação se agrava com o controle da circulação de mercadorias, onde comerciantes precisam seguir regras impostas pelos criminosos.
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Restrições e controle de produtos essenciais
Comerciantes em áreas dominadas pelo tráfico, ou pela milícia, relataram que certos produtos só podem ser vendidos por estabelecimentos autorizados pelos criminosos. Um morador da Zona Oeste observou que mesmo itens simples, como vassouras e farinha, passaram a ser controlados. “A nossa maior dificuldade é a internet. A gente não tem acesso a grandes empresas. Apenas aquelas autorizadas por eles.”
Além disso, o morador destacou um aumento nos preços devido à restrição de fornecedores. “Recentemente fui comprar uma vassoura em uma loja de material de construção e o vendedor me informou que não podia vender.” Essa imposição se estende a diversos produtos essenciais, como água e carvão, que devem ser adquiridos apenas de fornecedores que operam sob a autorização dos criminosos.
Ameaças e a reação das empresas
A situação se agrava ainda mais com os relatos de ameaças e cobranças sistemáticas por parte dos criminosos, que afetam até a logística de entrega. Funcionários de grandes empresas mencionaram que, ao tentarem realizar entregas, foram frequentemente abordados por indivíduos armados que exigiam pagamentos para permitir a passagem. Um funcionário relatou: “Eles diziam que só poderíamos entregar se pagássemos um valor semanal.” Além disso, um e-mail obtido revelou que os criminosos sequestraram documentos das entregas e ameaçaram levar os veículos de entrega em futuras abordagens.
Outro relatório interno revelou que comerciantes estão enfrentando uma “taxa pedágio” de R$ 800 semanais por empresa, e diante da insegurança, algumas empresas decidiram suspender as entregas. “Infelizmente, a empresa teve que deixar de atender esses clientes. Como não compactuamos com esse tipo de pagamento ilegal, interrompemos o atendimento.”
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) enfatiza que a insegurança representa um obstáculo significativo para a atração de investimentos no estado. Segundo a entidade, “sem segurança pública, os investimentos não serão realizados e não ficarão no território.”

