Redes Sociais como Ferramenta de Ativismo
Em 1981, Baby do Brasil lançou um samba-rock que continua relevante até hoje, alertando sobre a lenta evolução do Brasil em reconhecer os direitos indígenas. Na canção “Curumim Chama Cunhatã Que Eu Vou Contar”, a artista critica a limitação da visibilidade indígena a um único dia por ano. Quarenta e cinco anos depois, o Dia dos Povos Indígenas, comemorado em 19 de abril, passou a ser apenas uma entre várias datas em que a atenção nacional se volta para as comunidades indígenas. Hoje, com o apoio de influenciadores indígenas, a luta e a cultura desses povos são discutidas diariamente nas redes sociais.
Ysani Kalapalo e We’e’ena Tikuna são figuras proeminentes nesse cenário. Ambas, representando diferentes etnias, têm usado suas plataformas para promover a visibilidade e os direitos dos povos originários. Ysani, que se considera uma indígena do século XXI, começou sua trajetória na internet em 2008 e hoje possui mais de 2 milhões de seguidores em canais como YouTube e Instagram. Participando do Fórum da Liberdade em Porto Alegre, ela destacou a importância da resiliência de seu povo, afirmando: “Uma coisa de que eu gosto muito no meu povo é a alegria. É algo que eu admiro muito, é exatamente não perder a esperança”.
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Embora Ysani tenha enfrentado preconceitos ao ingressar na esfera digital, criando a campanha “Orgulho Indígena” para combater estigmas, ela observa que a situação mudou significativamente, e os indígenas são agora mais reconhecidos como seres humanos. O ambiente digital, antes um espaço para a apresentação da cultura e tradições, agora se transformou em uma arena de debate político sobre os direitos indígenas. Em 2019, Ysani foi convidada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro a integrar a delegação brasileira na Assembleia Geral da ONU, uma escolha que gerou controvérsias e uma nota de repúdio de 16 povos do Xingu.
A Luta e a Cultura nas Redes
We’e’ena Tikuna, por sua vez, chegou à internet através do Orkut e hoje se divide entre sua aldeia em Manaus, o Rio de Janeiro e São Paulo. Com quase 5 milhões de seguidores, ela utiliza suas plataformas para compartilhar saberes ancestrais, rituais e sua rotina, transformando suas redes em uma vitrine cultural e uma ferramenta de ativismo. “As redes são uma ferramenta de luta dos povos indígenas. Antigamente a gente era morto sem ninguém ver. Hoje as nossas terras são demarcadas porque a gente grava que estão matando parentes ali”, reflete a influenciadora.
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Entre suas campanhas, uma das mais significativas foi em defesa do Rio Tapajós, onde uma empresa planejava explorar o território. A mobilização digital gerou mais de 32 mil compartilhamentos e quase 1 milhão de visualizações, evidenciando o poder das redes sociais em mobilizar apoio e interromper iniciativas prejudiciais. “Se a gente não tivesse a internet, o que estaria acontecendo no rio que é conhecido como o Caribe da Amazônia?”, questiona We’e’ena, ressaltando a importância da visibilidade digital para a luta pela preservação territorial.
A Debatedora PEC 48 e o Futuro Indígena
A questão da demarcação de terras indígenas também está no centro do debate político atual, especialmente com a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 48, que foi aprovada pelo Senado. Esta proposta estipula que apenas terras já ocupadas ou em disputa desde a promulgação da Constituição, em 1988, podem ser demarcadas. Ysani expressou preocupações sobre a exploração dentro dessas terras: “Hoje há muita exploração dentro das terras indígenas, mas o indígena não recebe royalties, não tem lucro”. Em contraste, We’e’ena enfatiza a necessidade urgente da demarcação, relembrando o massacre que seu povo sofreu em 1988 e alertando que a falta de proteção territorial resulta em mortes e violência.
À medida que as influenciadoras discutem o futuro dos povos originários, suas diferenças ideológicas parecem se dissipar. Ambas desejam que o Dia dos Povos Indígenas represente mais do que um marco no calendário; elas aspiram por liberdade e autonomia para as comunidades indígenas no Brasil. Ysani reflete: “Que essa data represente mais liberdade, mais autonomia para o povo indígena, porque o indígena é ser humano”. Por outro lado, We’e’ena deseja um futuro onde a luta pela demarcação de terras não seja mais necessária e onde a cultura indígena seja preservada e valorizada.
Em última análise, o que une Ysani, We’e’ena e muitos outros indígenas é a determinação de não desaparecer. Entre a aldeia e o algoritmo, o que está em jogo é o direito de contar suas próprias histórias, sem estereótipos e limitações. “Nós, indígenas, precisamos, sim, trazer a nossa voz para que as pessoas escutem e saibam que nós existimos e que não, não estamos parados no tempo”, finaliza Alex Potiguara.

