Preocupação com Nova Variante do Vírus e Eficácia do Antiviral
A nova cepa do vírus da Mpox, resultado da fusão de duas linhagens já conhecidas (clados Ib e IIb), tem gerado grande preocupação entre autoridades de saúde, especialmente a Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa nova variante incorpora elementos de um surto global observado em 2022 e de um surto mais recente em países africanos. O cenário se torna ainda mais alarmante após a divulgação dos resultados de um importante estudo sobre o tecovirimat, o antiviral mais utilizado contra a varíola e outros vírus do gênero Orthopoxvirus, ao qual a Mpox também pertence.
Realizado e publicado no New England Journal of Medicine, o ensaio clínico conhecido como STOMP revelou que o tratamento com tecovirimat não conseguiu reduzir o tempo de cicatrização das lesões, não aliviou a dor e não acelerou a eliminação do vírus. Essa descoberta enfraquece uma das principais apostas no tratamento da doença, em um momento crucial, já que a situação da Mpox se torna cada vez mais incerta.
O estudo, que envolveu 344 adultos imunocompetentes com diagnóstico confirmado de Mpox do clado II, foi conduzido de forma randomizada e duplo-cega. A metade dos participantes recebeu tecovirimat oral, enquanto a outra metade recebeu um placebo por um período de 14 dias. Os resultados mostraram que a resolução clínica — que envolve a cicatrização das lesões e a melhora dos sintomas — foi semelhante entre os dois grupos, com 83% para o grupo que recebeu o antiviral e 84% para o grupo que recebeu o placebo.
A diferença na intensidade da dor foi mínima, com uma média de apenas 0,1 ponto em uma escala que varia de 0 a 10, e a eliminação do vírus ocorreu em um ritmo semelhante nos dois grupos. O achado se torna ainda mais relevante quando considerado conjuntamente com o estudo PALM007, realizado na República Democrática do Congo, que revelou conclusões semelhantes para o clado I. Juntas, essas evidências diminuem a justificativa para o uso rotineiro do tecovirimat entre adultos.
Imunocomprometidos e Grupos de Maior Risco
Um ponto crítico ressaltado pelos especialistas é que grupos vulneráveis, como imunocomprometidos, gestantes e crianças, não foram adequadamente incluídos nesses estudos. Isso deixa uma lacuna significativa no tratamento, especialmente para aqueles que mais necessitam de intervenções terapêuticas. A OMS está alerta para a possibilidade de que esta nova cepa esteja se espalhando mais rapidamente do que os dados atuais sugerem, dado que os dois casos confirmados foram encontrados no Reino Unido e na Índia, ambos com histórico de viagem internacional.
Ainda mais preocupante é o fato de que os testes convencionais de PCR, utilizados para distinguir entre clados, não conseguiram identificar corretamente o novo vírus, que só foi caracterizado como recombinante após o sequenciamento genômico completo. A diferença entre as linhagens é crucial, uma vez que o clado IIb associou-se a uma letalidade de menos de 0,1% em países de alta renda, enquanto o clado Ib, predominante na África Central, apresenta taxas de letalidade entre 3% e 5%, alcançando até 11% entre crianças e imunocomprometidos.
Impacto Global e Necessidade de Ação Precoce
Entre janeiro de 2024 e maio de 2025, mais de 139 mil casos suspeitos e cerca de 1.788 mortes foram registrados em 26 países africanos. No Brasil, não houve óbitos relacionados à Mpox nesses anos, mas a confirmação do clado Ib em São Paulo, em março de 2025, mudou a dinâmica do risco, passando a lidar com uma variante que pode ter desfechos mais graves. O Ministério da Saúde já atualizou as diretrizes, enfatizando a necessidade de revisar os protocolos clínicos à luz das novas evidências.
A vacinação continua sendo a principal forma de prevenção disponível atualmente. No Brasil, o SUS oferece a vacina Jynneos (MVA-BN) para grupos prioritários, com uma eficácia estimada entre 70% e 85% na prevenção de casos sintomáticos. Este imunizante é especialmente eficaz quando administrado até 96 horas após a exposição a risco. O foco da vacinação tem sido em populações vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens com múltiplos parceiros, profissionais do sexo e trabalhadores da saúde.
Outra vacina, a ACAM2000, que também oferece proteção contra a Mpox, não faz parte da estratégia do SUS e é restrita devido a efeitos adversos. Além disso, uma nova vacina de mRNA desenvolvida pela Moderna apresenta resultados promissores em testes em modelos animais.
Além da vacinação, práticas simples de prevenção, como evitar contato com lesões cutâneas de pessoas suspeitas de estarem infectadas e buscar atendimento ao notar lesões na pele acompanhadas de febre e aumento dos gânglios linfáticos, são essenciais. Orientações clínicas provisórias dos CDC são valiosas para a condução de casos mais graves, especialmente entre pacientes com imunossupressão avançada, reforçando a necessidade de atenção especial a este grupo.

