A importância de Tia Ciata no Samba Carioca
Neste mês de março, especialmente no dia 5, o anúncio de que Tia Ciata será o enredo da escola de samba Paraíso do Tuiuti em 2027 ressoa fortemente com a luta pela igualdade de gênero, coincidentemente feito três dias antes do Dia Internacional da Mulher. A escolha destaca a relevância de figuras femininas na história do samba, uma celebração que vai além do Carnaval e reverbera em cada dia do ano.
O enredo intitulado “Ciata – A mãe preta do samba” foi criado por Cláudio Russo e Luiz Antônio Simas, e será desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage. Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata, nasceu em 13 de janeiro de 1854 em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, e se destacou como uma Matriarca ativista na cena do samba carioca até sua morte em 10 de abril de 1924.
A trajetória de uma pioneira
Ciata, uma mãe de santo que se mudou para o Rio de Janeiro em 1876, aos 22 anos, estabeleceu-se na Praça Onze, um espaço cultural vital conhecido como Pequena África. Nesta área, ela não apenas atuou como líder espiritual, mas também como uma figura central na promoção do samba, trazendo influências da Bahia e misturando-as com as rítmicas cariocas. Sua casa tornou-se um ponto de encontro para sambistas, onde a música e a espiritualidade se entrelaçavam, proporcionando um espaço seguro em tempos de repressão.
É surpreendente que, após mais de um século após a morte de Ciata e quase 100 anos desde o primeiro desfile das escolas de samba, sua contribuição esteja finalmente sendo oficializada em forma de enredo. Essa escolha não apenas homenageia sua memória, mas também traz à tona a importância das mulheres na construção do samba.
A resistência cultural e a luta por visibilidade
Tia Ciata não era apenas uma quituteira e ialorixá, mas uma figura essencial na formação do samba como reconhecemos hoje. Sua casa na Praça Onze serviu como um refúgio e um berço de criatividade para muitos sambistas, predominantemente negros, que enfrentavam o desprezo da sociedade da época. Em uma era em que tocar samba era associado à marginalidade, Ciata desafiou essas percepções, tornando-se uma agitadora cultural.
Ela era conhecida por organizar rodas de samba, onde sua presença era indispensável. Registros informais revelam que a mãe preta do samba dominava as técnicas do partido alto e se destacava nas danças, especialmente no miudinho, um ritmo característico do samba.
Reconhecimento tardio, mas necessário
Enquanto muitos homens se tornaram ícones da história do samba, a contribuição das mulheres, como Tia Ciata, muitas vezes foi minimizada ou até esquecida. O legado de Hilária Batista de Almeida precisa ser relembrado e reconhecido, não apenas no Carnaval, mas em todas as esferas da cultura brasileira. O enredo sobre sua vida e influência é um passo significativo para corrigir essa narrativa e dar voz a uma parte vital da história do samba.
Assim, o Carnaval de 2027 promete ser não apenas uma celebração da música e da dança, mas também uma homenagem a uma mulher que, apesar dos desafios, conseguiu deixar um legado indelével na cultura brasileira. Tia Ciata é, sem dúvida, uma figura central que merece ser lembrada e celebrada, e sua história é um lembrete poderoso da luta contínua por igualdade e reconhecimento das contribuições femininas no Brasil.

