Entendendo o Acordo entre Mercosul e União Europeia
A aprovação do acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) foi considerada por muitos como um marco histórico para o multilateralismo, na visão do presidente Lula. Este tratado, que promete transformar o comércio entre os blocos, terá repercussões distintas para setores econômicos variados. Enquanto a indústria europeia parece ser a principal beneficiada, o agronegócio no Brasil se destaca como o grande vencedor do lado sul-americano. Contudo, as mudanças no mercado de trabalho e os reflexos no bolso do consumidor devem ocorrer de forma gradual.
Mas quem realmente sai ganhando e quem pode enfrentar perdas com essa nova dinâmica? Vamos explorar os detalhes.
Exportações e Importações: Um Panorama Geral
Dados fornecidos pela Secretaria de Comércio Exterior revelam a importância do tratado. De janeiro a dezembro de 2025, as exportações brasileiras para a UE totalizaram aproximadamente US$ 49,8 bilhões, o que representa um aumento de cerca de 3% em relação ao ano anterior. Já as importações brasileiras deste bloco chegaram a US$ 50,3 bilhões, crescendo 6,4% no mesmo período.
A pauta de exportações do Brasil para a UE é composta majoritariamente por produtos básicos. O ano passado evidenciou que os principais itens exportados incluiram óleos brutos de petróleo, café não torrado, farelo de soja, minérios de cobre e soja em grão. Por outro lado, as importações são dominadas por produtos industrializados, como medicamentos, partes e acessórios de veículos, além de máquinas não elétricas e instrumentos de medição.
Benefícios para a Indústria Europeia
A União Europeia se posiciona para colher os maiores benefícios no setor industrial. Conforme estimativas da Comissão Europeia, mencionadas pelo jornal El País, o acordo pode aumentar o potencial de exportações do bloco em até € 84 bilhões, além de gerar cerca de 756 mil empregos.
O setor automotivo é um dos mais favorecidos, especialmente em um contexto de crescente concorrência com os veículos elétricos fabricados na China. A indústria química e farmacêutica também deve experimentar ganhos significativos. A diminuição ou eliminação de tarifas sobre produtos como queijos, vinhos e bebidas destiladas, que atualmente podem chegar a até 35%, impulsionará o setor agroalimentar europeu.
A presidente da associação da indústria automobilística alemã, Hildegard Müller, declarou que a aprovação do acordo é uma “notícia muito positiva”, ressaltando as amplas oportunidades que se abrem para a indústria automotiva.
Setor Agrícola no Mercosul: Uma Oportunidade Dourada
Do lado sul-americano, o Brasil e os países do Mercosul são os que, em termos relativos, devem experimentar os maiores benefícios, mesmo diante da resistência política na Europa, especialmente na França, onde organizações agrícolas se mostraram contrárias ao tratado.
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) esclareceu que o novo acordo não altera o sistema atual de cotas para carne de frango entre Brasil e UE. O que se destaca é a criação de um contingente tarifário adicional de 180 mil toneladas anuais isentas de tarifas, que será introduzido gradualmente ao longo de seis anos.
Além disso, a carne suína receberá uma cota preferencial específica de 25 mil toneladas anuais com tarifas reduzidas, oferecendo uma oportunidade significativa para as exportações brasileiras. O segmento de ovos também se beneficia, com a inclusão de cotas isentas de tarifas para ovos processados e albuminas, que permitem um aumento nas exportações de maior valor agregado.
Expectativas para o Consumidor Brasileiro
Para o consumidor brasileiro, as mudanças devem ser percebidas apenas a longo prazo. Segundo Leandro Gilio, professor do Insper Agro Global, o efeito prático do acordo poderá demorar a se concretizar. Ele observa que a redução tarifária será gradual, com prazos que variam de 5 a até 30 anos para alguns produtos.
Gilio acrescenta que, embora o acordo traga uma mensagem positiva em um cenário geopolítico complicado, os benefícios diretos para o bolso do consumidor não são esperados tão cedo. A pesquisadora Lia Valls, do FGV Ibre, concorda que, apesar do acordo prometer livre comércio total em até dez anos para muitos produtos, o cronograma do Brasil é mais longo, especialmente em setores sensíveis como o automotivo, que incluem veículos elétricos.

