A Influência do Bolsonarismo nas Eleições de 2024
À medida que nos aproximamos das eleições de 2024, o cenário político brasileiro parece se desenhar de forma bastante complexa. Se, por um lado, a vitória de Lula parece ser a mais provável, ela não virá sem desafios, uma vez que não houve um esforço concreto para estabelecer um sucessor. Nesta dinâmica, Fernando Haddad se apresenta como um nome que, apesar de seu papel importante, pode ser visto como um ‘estranho no ninho’. Por outro lado, caso Flávio Bolsonaro vença, o que é considerado improvável, ele poderá desmantelar toda a aliança construída com grande esforço desde 2015. O Centrão, que sempre se posiciona no centro do poder, segue a sua estratégia habitual, sem grandes promessas e já arquitetando ameaças.
O que pode ser visto como uma vitória de Pirro para o lulismo esconde uma realidade que se torna um importante alicerce eleitoral para os progressistas: as cidades bolsonaristas.
O Mapa Eleitoral e o Fenômeno Bolsonarista
Em 2022, a vitória de Bolsonaro se consolidou nas regiões oeste do Brasil, no sudeste, à exceção de Minas Gerais, e em todo o sul do país. No entanto, os dados agregados não revelam a complexidade oculta: os pequenos municípios que abraçaram o bolsonarismo, especialmente no centro-sul do Brasil. O mapa eleitoral de outubro de 2022 mostra uma distribuição significativa de votos bolsonaristas em pequenas cidades do interior de São Paulo, no leste dos Estados do Sul, e em algumas áreas de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. A concentração de votos bolsonaristas é especialmente notável no Centro-Oeste e em algumas partes do Norte.
De fato, estudos recentes sugerem que houve uma migração surpreendente dos votos de Bolsonaro das grandes cidades para municípios menores entre os anos de 2018 e 2022. Fernando Meireles, pesquisador de pós-doutorado em Ciência Política no Cebrap, constatou que nas cidades com menos de 50 mil eleitores, especialmente no Nordeste e no Norte, a votação de Bolsonaro cresceu em média 3 pontos percentuais.
Dinâmica dos Pequenos Municípios Brasileiros
Para compreender a política nas pequenas cidades, é necessário entender a dinâmica e a estrutura dessas localidades. Em 2017, o IBGE classificou os municípios brasileiros em urbanos e rurais, buscando captar a gradiente de urbanização. Essa classificação revela que mais da metade (54,6%) dos municípios brasileiros são rurais adjacentes a áreas urbanas, enquanto 5,8% são considerados rurais remotos.
Essas localidades, representando um vasto território do Brasil, são marcadas pela prevalência de relações interpessoais, onde a política local se constrói muitas vezes em torno de figuras de mando que detêm o controle sobre a vida social e econômica. O antropólogo Moacir Palmeira observou que a política em pequenos municípios é marcada por ciclos de mando, onde líderes locais contestam a hegemonia de dirigentes tradicionais, geralmente em um contexto de polarização política.
O Voto nas Cidades Pequenas: Adesão ou Escolha?
Assim, o voto nessas pequenas cidades muitas vezes é mais uma adesão do que uma escolha individual. Ele reflete um posicionamento em relação às facções políticas em disputa, com fatores como parentesco e amizade influenciando a decisão. O período eleitoral, então, se torna um espaço onde a negociação entre promessas e a troca de favores se intensificam. Essa lógica faz com que muitos eleitores se vejam presos em um ciclo onde mudar de lado é considerado uma quebra de confiança, contrariando um código de ética implícito.
Essa realidade é ainda mais aguda para os eleitores de baixa renda, que se encontram em uma posição de vulnerabilidade econômica e política. A estrutura do poder nas pequenas cidades, onde a prefeitura é o maior empregador e a política se torna um jogo de favores, perpetua uma dinâmica de subordinação e ressentimento, alimentando ainda mais o fenômeno bolsonarista nas localidades.
O Caso do Oeste Paulista
Tomemos como exemplo a região oeste paulista, que caracteriza bem as dinâmica do bolsonarismo em pequenas cidades. Historicamente, essa região foi marcada por uma política conservadora, que se radicalizou em apoio a Bolsonaro. Cidades como Marília, Tupã e Pompéia, por exemplo, demonstraram uma alta concentração de votos no candidato, refletindo uma adesão fervorosa ao bolsonarismo. O fenômeno pode ser visto como um reflexo de desigualdades sociais e de uma cultura local profundamente enraizada na ostentação e no ressentimento.
A polarização política se cristaliza nessas localidades, onde as vozes dissonantes muitas vezes são silenciosas, e a adesão ao discurso bolsonarista se torna uma estratégia de sobrevivência diante das desigualdades estruturais.
A reflexão sobre o bolsonarismo nas pequenas cidades nos leva a entender que a política no Brasil é um campo permeado por relações de poder complexas, onde o eleitorado se vê constantemente desafiado por uma realidade que exige uma análise mais aprofundada e sensível.

