Impacto da Geopolítica nas Relações Comerciais
O cenário atual exige atenção especial para o acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Especialistas afirmam que a postura mais proativa dos Estados Unidos na América do Sul, especialmente evidenciada por ações do governo Trump contra a Venezuela, pode estar aumentando a pressão sobre a UE para que celebre o tão aguardado acordo comercial. Em um mundo repleto de incertezas, observadores de comércio exterior e direito internacional destacam que a agressividade da administração americana está, surpreendentemente, unindo europeus e sul-americanos na busca por parcerias comerciais mais estáveis.
Esse acordo não é apenas uma questão de política, mas possui relevância significativa no comércio internacional. Espera-se que amplie a presença da UE em uma região onde a China já figura como uma importante fornecedora de bens e compradora de commodities. A dinâmica do comércio global pode inverter-se se a Aliança Europa-Mercosul for consolidada.
O Papel da Itália e as Pressões Internas da UE
Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e sócio da consultoria BMJ, o recente apoio da Itália representa um desenvolvimento positivo e uma resposta às pressões internas da UE. Essas pressões surgiram depois que Roma pediu uma prorrogação para o processo de assinatura do acordo, provocando uma reanálise da situação. Barral observa que essa mudança de postura indica uma preocupação crescente da União Europeia em perder relevância na América Latina. A ofensiva americana contra a Venezuela, segundo ele, pode ter reforçado esse raciocínio.
“A União Europeia, ao observar sua diminuição de influência, percebe que é mais crucial do que nunca avançar nas negociações com o Mercosul, e a recente postura dos EUA deve ser um fator relevante nesse processo”, destaca Barral.
UE em Busca de Influência Global
Marcos Jank, professor e pesquisador sênior de agronegócio no Insper, ressalta que se o tratado for assinado, poderá ajudar a UE a preservar e até expandir sua influência em regiões tradicionalmente ligadas a ela. Em um contexto global fragmentado, onde disputas por áreas de influência e aliados estratégicos são cada vez mais comuns, a aproximação com o Mercosul se torna uma prioridade.
“A nova postura dos EUA, que considera a América Latina como uma área de influência direta, pode, ironicamente, aproximar os europeus dos sul-americanos em um esforço para reforçar laços comerciais”, pondera Jank. Ele também destaca que, diferentemente das negociações com a China, que estão impregnadas de disputas hegemônicas, o acordo com o Mercosul é mais previsível e vem sendo discutido há mais de 20 anos.
Interesse Europeu Aumentado pelo Mercosul
Roberto Jaguaribe, conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e ex-embaixador do Brasil na Alemanha, concorda que a instabilidade do sistema internacional tem pressionado a Europa a buscar parcerias mais confiáveis. A ofensiva americana contra a Venezuela apenas reforçou essa urgência. Ele menciona que a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que anteriormente se aliou à França para bloquear a assinatura do acordo, agora reconhece a importância da parceria.
Segundo Jaguaribe, embora Meloni tenha tido uma postura cautelosa devido a pressões internas, ela está atualmente disposta a avançar nas negociações com o Mercosul. “Esse acordo é extremamente vantajoso para a Europa, pois representa uma das poucas oportunidades de a UE obter uma vantagem efetiva em relação a grandes potências como os Estados Unidos e a China, que não têm acesso ao mercado do Mercosul nas mesmas condições”, conclui Jaguaribe.

