Desafios e Crises na Presidência da Câmara
A Câmara dos Deputados tem enfrentado um cenário turbulento, marcado por obstruções e um processo legislativo fragilizado. A prática de votações em horários inusitados, como na calada da madrugada em 2025, se tornou um traço distintivo da gestão atual, muito parecido com métodos utilizados por Eduardo Cunha, mentor político do presidente da Casa, Hugo Motta. Essa abordagem, segundo Mayra Goulart, cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), limita as oportunidades de deliberação e a participação da sociedade civil. Goulart compartilhou suas reflexões durante uma participação no podcast Três por Quatro, do Brasil de Fato.
Goulart destaca que a fragmentação do legislativo, composto por 513 deputados e 81 senadores de diferentes partidos, requer uma articulação eficiente para dar continuidade ao processo legislativo. “O papel dos líderes é fundamental para guiar as votações e organizar a agenda com o colégio de líderes, de forma a minimizar a influência de diversos atores que podem obstruir essa dinâmica. O presidente deve ser capaz de superar essas dificuldades para garantir o funcionamento da Casa”, explica.
A votação do polêmico projeto da dosimetria, realizada em dezembro de 2025, se tornou um marco nos primeiros meses de Hugo Motta no comando da Câmara. “Assistimos a votações às 4 da manhã, com um ritmo extremamente acelerado. Esse tipo de prática prejudica a inclusão da sociedade civil no processo legislativo, e Motta tem um papel crucial em perpetuar esse modelo que resulta no que chamamos de ‘solipsismo parlamentar'”, critica Goulart.
No contexto político, o solipsismo se refere a uma situação em que um ator político ignora o diálogo e foca apenas em seus próprios interesses. Goulart aponta que o Congresso tem se concentrado cada vez mais em questões internas e na busca de emendas e recursos para suas bases eleitorais, em vez de promover um desenvolvimento mais amplo e um projeto de nação.
Além disso, a cientista política considera que Motta não tem conseguido organizar adequadamente essas dinâmicas fisiológicas, que são essenciais para a política. “Para que o ‘balcão’ funcione, é necessário um mínimo de habilidade para cumprir os acordos. No entanto, Motta parece não ter demonstrado essa capacidade. Não é apenas o governo que ignora suas declarações, mas todos os envolvidos, pois a credibilidade de um político é fundamental”, analisa.
Em contraste, Davi Alcolumbre, atual presidente do Senado, é visto como um protagonista forte no cenário político. Goulart ressalta que Alcolumbre possui uma habilidade notável para entregar resultados, algo que Motta tem falhado em fazer. “Enquanto Hugo Motta saiu desmoralizado de 2025, Alcolumbre se mantém como um dos principais atores da República, justamente por conseguir organizar as dinâmicas e evitar que se tornem autodestrutivas”, afirma.
Goulart também aponta que a chamada “era hegemônica do Congresso” não é uma característica atual, mas remete ao governo de Jair Bolsonaro. Naquela época, segundo a especialista, o governo abdicou de sua agenda, permitindo que o Congresso exercesse um controle mais amplo, ampliando seu “balcão” e fazendo com que as emendas aumentassem de forma significativa.
Ao observar a evolução das emendas durante o governo Bolsonaro, Goulart conclui que houve um crescimento acentuado dessa dinâmica fisiológica, com Alcolumbre desempenhando um papel extremamente importante que ele continua a exercer até o momento. O cenário atual levanta questões sobre a capacidade de Hugo Motta de reverter sua imagem e estabelecer uma liderança mais sólida e respeitada dentro da Câmara dos Deputados.

