Memórias Musicais no Rio de Janeiro
Em 1971, um episódio intenso marcou a vida da cantora Elis Regina. Durante uma crise de ciúmes com o produtor Ronaldo Bôscoli, Elis arremessou sua coleção de LPs de Frank Sinatra pela janela de sua casa em direção ao mar, um momento contado pela biógrafa Regina Echeverria em “Furacão Elis”. Essa casa, situada em um condomínio privado na avenida Niemeyer, 550, em São Conrado, ainda permanece como testemunha dessa história. Apesar de reformas e modernizações, a estrutura original dos quatro andares foi preservada. Antes de ser colocada à venda por R$ 8 milhões, o imóvel chegou a ser oferecido para locação temporária por R$ 3.800 a diária.
Bairros do Rio que Respiram Cultura e Música
Além da residência de Elis, outros endereços na cidade estão ligados a figuras notórias da música, literatura, televisão e cinema. Esses locais se tornaram pontos de interesse turístico, atraindo fãs interessados em caminhar pelas ruas que abrigaram grandes artistas. O roteiro passa por bairros como Centro, Catete, Copacabana, Ipanema, Jardim Botânico e Vidigal, entre outros.
Um exemplo é o Edifício 401, Bloco III, na Estrada do Tambá — atualmente avenida Presidente João Goulart — que acolheu a cantora Gal Costa. Conhecido como o “prédio dos artistas”, o condomínio também teve como moradores os atores Lima Duarte e Kadu Moliterno, além das cantoras Zizi Possi e Ângela Ro Ro. Gal Costa adquiriu seu apartamento na planta e solicitou modificações para ampliar o espaço, o que revela a importância do local para esses artistas.
Rua Nascimento Silva: Berço da Bossa Nova
Na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, o número 107 ganhou destaque na história da música brasileira. Foi nesse endereço que Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Toquinho compuseram a canção “Carta ao Tom 74”, que revisita a bossa nova. A casa também abrigou o cantor e compositor Renato Russo. Em 2012, o Instituto Antônio Carlos Jobim, no Jardim Botânico, promoveu a exposição “Tom Jobim – Música e Natureza”, reunindo fotos, o piano e a mesa de trabalho do músico, entre outros objetos.
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O que chama atenção é que o visitante não encontra um museu tradicional, mas sim uma rua residencial comum, cercada de árvores e prédios típicos de Ipanema. A experiência está em caminhar pela via e imaginar os encontros criativos que ali aconteceram.
No mesmo endereço, no número 97, Maria Bethânia morou na cobertura do edifício Château de Vizille no início dos anos 1970. Este local era um ponto de encontro boêmio da MPB, onde Bethânia conheceu Luiz Melodia, que chegou cantando “Estácio, Holly Estácio”. A fotógrafa Thereza Eugênia registrou momentos descontraídos na piscina da cobertura, envolvendo Bethânia, a atriz Leina Krespi e a violonista Rosinha de Valença. Em 1973, Bethânia deixaria o bairro nobre para morar em uma casa na floresta da Zona Oeste.
Leblon e a Vida Reservada de João Gilberto
No Leblon, João Gilberto viveu seus últimos anos no apartamento da Rua Carlos Góis, 234, onde mantinha uma rotina discreta. Passava longos períodos tocando violão e conversando ao telefone até altas horas, um detalhe que se tornou parte da biografia do músico. A conexão do Rio com a música também se manifesta em roteiros dedicados a Cazuza. A exposição “Cazuza — Exagerado”, em 2025, destacou locais onde o artista morou, como ruas no Leblon, Lagoa, Gávea e Ipanema.
Gabinete de Leitura e Patrimônio Cultural em Ipanema
O produtor musical Guilherme Araújo, fundamental para a carreira dos Doces Bárbaros — grupo formado por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia — residiu na Rua Redentor, 158, em Ipanema. A casa, hoje um espaço cultural conhecido como Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, mantém 14 cômodos com características arquitetônicas preservadas. Ali, são realizadas leituras dramatizadas, pocket shows e outros eventos culturais, servindo como exemplo do potencial turístico cultural do Rio para fãs e visitantes.
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Clara Nunes e a Contemplação do Rio
O roteiro inclui a casa de três andares na Rua Engenheiro Alfredo Duarte, 259, no Jardim Botânico, associada a Clara Nunes. A cantora viveu ali até sua morte, com vista para o Cristo Redentor. Conhecida por sua superstição, ela guardava uma imagem de Nossa Senhora das Candeias no jardim. Clara também morou na Rua Leopoldo Miguez e em um apartamento em Ipanema adquirido com o dinheiro do musical “Brasileiro Profissão Esperança”, no qual atuou ao lado do ator Paulo Gracindo.
Preservação da Memória de Carmen Miranda
A casa onde Carmen Miranda viveu, na Travessa do Comércio, no Centro do Rio, foi desapropriada em abril e está em processo de restauração. Próximo ao Arco do Teles, o imóvel é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e deverá se transformar em um museu dedicado à artista, que viveu ali entre 1925 e 1931. A trajetória da família Miranda inclui outros endereços no Centro, Lapa e Urca, mostrando a diversidade dos locais ligados à “Pequena Notável”.
Iniciativas para Valorizar o Rio como Cidade Musical
Desde 2025, a Embratur tem investido na promoção do Rio de Janeiro como uma cidade musical. Em parceria com a plataforma Queremos!, foi lançada a Rio de Janeiro Sounds, um site que centraliza a agenda de eventos musicais da cidade. Marcelo Freixo, então presidente da Embratur, destacou a música como ferramenta para divulgar a diversidade cultural do Brasil e atrair visitantes de todo o país.

