Emendas parlamentares e articulação política em Belford Roxo
A Polícia Federal (PF) identificou R$ 80 milhões em emendas de comissão indicadas pela liderança do União Brasil na Câmara dos Deputados e destinadas a Belford Roxo, na Baixada Fluminense, durante a gestão do ex-prefeito Márcio Canella, preso recentemente. Conforme os investigadores, esses recursos foram registrados como “emendas de liderança”, o que significa que não há identificação nominal dos parlamentares responsáveis pelas indicações.
Essa informação está presente na representação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF), que fundamentou a decisão do ministro Alexandre de Moraes de decretar a prisão preventiva de Canella no âmbito da Operação Unha e Carne.
Indícios presentes em anotações e documentos oficiais
Durante a investigação, foi encontrada no celular de Canella uma anotação contendo os termos “Emendas / 20 Pedro 20 Mota”, que a PF associa aos deputados federais Pedro Lucas Fernandes (União) e Gabriel Mota (União). Essa anotação, reproduzida tanto na representação policial quanto na decisão judicial, reforça os indícios do papel político exercido pelo ex-prefeito. Contudo, os documentos não esclarecem o significado dos números que acompanham os nomes nem confirmam a responsabilidade direta dos parlamentares na indicação das emendas.
Na página 48 da representação da PF, há um trecho que relaciona essas emendas à articulação política de Canella, ressaltando que os valores foram registrados sem indicar nominalmente os parlamentares que as indicaram. O documento também faz uma comparação com um esquema investigado pela corporação envolvendo Valdemar Costa Neto, presidente do PL, sem contudo estabelecer ligação entre os casos.
Decisão judicial e ausência de detalhamento sobre uso dos recursos
A decisão do ministro Alexandre de Moraes, assinada recentemente, reproduz a imagem da anotação encontrada no celular do ex-prefeito, reforçando a suspeita do protagonismo de Canella na sustentação política da organização criminosa investigada. Apesar da identificação do volume destinado a Belford Roxo, a representação não detalha as obras ou serviços financiados pelas emendas, tampouco informa o montante efetivamente repassado à prefeitura.
Leia também: Eleições no Rio: Como Belford Roxo Se Tornou Centro da Influência do Crime Organizado
Leia também: Desfile Cívico em Belford Roxo destaca educação e cidadania na Estrada Aníbal da Mota
Além disso, não há comprovação nos documentos analisados de que esses recursos tenham sido desviados ou usados para financiar a rede de postos de combustíveis investigada pela PF. Também não foi demonstrada nenhuma ligação financeira direta entre as verbas públicas e as movimentações suspeitas detectadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Reação dos envolvidos e contexto da investigação
Os deputados federais mencionados não se manifestaram até o momento. Por meio de sua advogada, Sheila Lustoza, Márcio Canella afirmou confiar na Justiça e na elucidação dos fatos.
A investigação da PF descreve Canella como “patrono político” e articulador de uma organização criminosa que utilizaria empresas do setor de combustíveis para movimentar recursos ilícitos. Sua atuação política, segundo o relatório, envolve a articulação entre integrantes do grupo criminoso, agentes públicos e estruturas administrativas.
Conexões empresariais e valores movimentados
O inquérito também destaca o vínculo societário de Canella com Bruno Viana de Souza na empresa Brumar Empreendimentos e Participações, que está conectada ao Posto de Gasolina São Sebastião, em Belford Roxo. Este posto foi apontado como responsável por depósitos em espécie superiores a R$ 10 milhões, conforme comunicação ao Coaf.
Relatórios financeiros da investigação registram movimentações globais acima de R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026, envolvendo centenas de pessoas físicas e jurídicas no setor de combustíveis. Esse montante, porém, não se relaciona diretamente às emendas parlamentares destinadas ao município.
Leia também: Belford Roxo inicia Semana da Pátria com Desfile Cívico no Jardim Redentor
Leia também: Um Ano de Transformações em Belford Roxo: Educação, Saúde e Esporte em Foco
Prisão preventiva e andamento da Operação Unha e Carne
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, manifestou-se favoravelmente às medidas cautelares solicitadas pela PF. O ministro Alexandre de Moraes acolheu parcialmente os pedidos e decretou a prisão preventiva de Canella e outros investigados, incluindo o ex-secretário de Polícia Civil do Rio, Marcus Amim. As suspeitas continuam sob investigação e não representam condenação judicial.
Na oitava fase da Operação Unha e Carne, divulgada recentemente, seis pessoas foram presas. Durante os mandados, foram apreendidos veículos de luxo, armas, dinheiro em espécie, joias, relógios e equipamentos eletrônicos, além de documentos que podem auxiliar o avanço das investigações.
Entre os itens apreendidos estão 12 veículos de luxo, 13 celulares, joias e relógios de alto valor, cerca de R$ 90 mil em espécie, 16 armas e munições, mídias e documentos diversos.
Os desdobramentos da operação seguem sob análise das autoridades, que buscam esclarecer o alcance da organização criminosa e seu impacto nas estruturas públicas e privadas relacionadas ao setor de combustíveis no Rio de Janeiro.

