Reflexões de uma Atleta em Luta
Conquistar a medalha de ouro no circuito brasileiro de vôlei de praia no dia 8 de março foi um momento marcante para Carol Solberg. A atleta bicampeã do circuito mundial se destacou nas areias em um dia que celebra a luta feminina, jogando ao lado de sua parceira, Rebecca Cavalcanti. Com essa vitória, Carol reafirmou que o espaço da mulher é onde ela decide estar, mesmo diante dos desafios e do machismo que ainda permeiam o mundo esportivo. Recorda, com carinho, das pioneiras que abriram caminhos, como sua mãe, Isabel Salgado, uma referência e inspiração constante em sua carreira.
A paixão pelo esporte é tão intensa que Carol optou por adiar a ideia de ter um terceiro filho — já é mãe de José, de 13 anos, e Salvador, de 9. Seu foco atual é garantir uma vaga nas Olimpíadas de Los Angeles, em 2028. Essa determinação, no entanto, não a faz recuar diante das punições por suas opiniões políticas. Recentemente, foi suspensa pela Federação Internacional de Vôlei de Praia, ficando de fora da etapa do Mundial em João Pessoa após celebrar a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, conquistando, antes, a medalha de bronze no Mundial da Austrália, em novembro.
A Voz de uma Atleta
Aos 38 anos, Carol está em plena forma física e com muita garra para os Jogos Olímpicos. Ela participou do videocast “Conversa vai, conversa vem”, do GLOBO, que foi ao ar no dia 24 de outubro. Durante a conversa, ela abordou temas como a suposta neutralidade no esporte, que considera um mito, e as imposições que desencorajam os atletas a se posicionarem. “Essas regras visam deixar os atletas com medo e desacorajar suas vozes. Minha punição, por exemplo, serve para intimidar outros atletas e fazer com que pensem duas vezes antes de se manifestar”.
Em 2020, Carol já havia enfrentado uma situação semelhante ao gritar “Fora, Bolsonaro” durante uma entrevista ao vivo, também após conquistar uma medalha. Para ela, a neutralidade no esporte é uma imposição injusta, que se revela em momentos de pressão e expectativa. “Quando estou jogando, levo comigo minhas experiências, minhas dores e alegrias. É impossível ficar calada ao final de uma partida se sinto algo forte para dizer”.
Os Desafios de uma Atleta Feminina
O machismo e a misoginia, segundo Carol, são questões que afetam as mulheres de diversas formas, especialmente no esporte. Ela relata que muitas vezes enfrentou um olhar masculino ao ser julgada. “Em um julgamento, um juiz me chamou de ‘garota’. Essa forma de tratar as mulheres é apenas um reflexo de como somos percebidas em um ambiente dominado por homens”. Apesar deste cenário desafiador, Carol tem encontrado apoio em algumas vozes do esporte e acredita na união das mulheres para combater essas injustiças.
Recentemente, a atleta viveu um episódio doloroso ao ser chamada de “vagabunda” por homens durante uma partida em Itapema, Santa Catarina, após sua manifestação política. “Tive que chamar a segurança, pois não suportava mais. Esses homens se acham no direito de ofender, mas minha resposta foi firme, pois a luta continua”.
A Influência de Isabel Salgado
Isabel Salgado, mãe de Carol, foi uma figura fundamental em sua vida, não apenas como atleta, mas como uma mulher que sempre se posicionou. Carol destaca que a coragem e a generosidade da mãe moldaram sua visão de mundo e sua disposição para lutar. “Falar sobre a herança dela é essencial para mim, pois foi ela quem me ensinou a importância de não ter medo de expressar minhas opiniões”. O luto pela perda de Isabel, há quase quatro anos, é uma dor constante, mas Carol mantém viva a memória da mãe em suas conquistas diárias, se conectando com ela em cada partida.
Falando sobre o legado deixado por sua mãe, Carol enfatiza que a liberdade de expressão e a escolha do que vestir em quadra são vitórias significativas conquistadas pelas mulheres ao longo dos anos. “Antigamente, havia uma regra rigorosa sobre o tamanho do biquíni a ser usado. Agora, há uma liberdade maior para as atletas”.
Preparações para o Futuro
No próximo Mundial, Carol se destacou em quase todas as categorias, tornando-se a maior pontuadora, bloqueadora e sacadora. Ela atribui seu sucesso a um amadurecimento que levou anos e a um trabalho contínuo com sua psicóloga, refletindo sobre a importância da concentração e do equilíbrio emocional no esporte. “A cada treino, busco não pensar nas expectativas dos outros, mas sim na minha própria preparação. A presença absoluta dentro de quadra é o que me faz amar o vôlei”.
Por fim, Carol revela que atualmente busca uma vaga nas próximas Olimpíadas, reafirmando seu compromisso com a competição e com a luta por igualdade e reconhecimento no esporte. “Acredito que, ao nos manifestarmos, podemos avançar e inspirar novos atletas a se posicionarem. O esporte é uma ferramenta poderosa para mudanças sociais e precisamos aproveitar essa oportunidade”.

