Leilão da Marca Leader em Tempo de Crise
A renomada marca Leader, que fez parte da história do varejo brasileiro, será leiloada nesta terça-feira, em um evento que promete ser mais um capítulo no conturbado cenário econômico da varejista. Avaliada em aproximadamente R$ 719 milhões, a marca não opera mais lojas e está sendo apresentada como parte da tentativa de abater uma dívida tributária superior a R$ 1 bilhão, sendo a maior parte deste passivo relacionada ao estado do Rio de Janeiro.
A penhora que permite este leilão foi determinada pela Justiça do Rio de Janeiro, após decisão da 11ª Vara de Fazenda Pública, sob a supervisão do juiz Claudio Augusto Annuza Ferreira. O evento está programado para às 12h20, horário de Brasília, e será realizado através do site “Portella Leilões”, que tem o leiloeiro Rodrigo Lopes Portella à frente da condução dos lances. Caso o leilão não atraia interessados, existe a possibilidade de que a marca seja vendida pela metade do valor em uma segunda chamada marcada para o dia 6 de abril, no mesmo horário.
Condições de Pagamento e Tentativa de Recuperação
Os interessados em arrematar a marca poderão efetuar o pagamento à vista ou, conforme a decisão do juiz e as condições estipuladas no edital, em até 15 dias com uma caução de 30%, além do pagamento das comissões e taxas processuais. Essa penhora está sendo vista como uma tentativa de recuperar os débitos acumulados pela varejista, que se intensificaram após a falência da empresa e a falha em cumprir um plano de recuperação judicial iniciado em março de 2020. A marca foi formalmente apresentada como garantia em um termo assinado entre a rede e o estado do Rio.
De acordo com um relatório da Procuradoria-Geral do Estado, a dívida tributária da Leader já inscrita na dívida ativa alcançava cerca de R$ 693,3 milhões até junho de 2022. Isso inclui um passivo de ICMS que, segundo dados mais recentes de fevereiro de 2025, já ultrapassava os R$ 944 milhões.
Histórico de Falência e os Desafios do Varejo
Com um passivo total que beirava R$ 1,2 bilhão, a Leader entrou com um pedido de recuperação judicial em março de 2020, com um plano aprovado no ano seguinte. Contudo, a reestruturação revelou-se insustentável. De 2023 a 2024, a varejista enfrentou desafios significativos, incluindo a inflação, a migração do consumo para plataformas digitais e os impactos prolongados da pandemia de COVID-19, fatores que culminaram no fechamento gradual das lojas e em atrasos recorrentes em pagamentos e salários.
Em abril de 2025, a 3ª Vara Empresarial do Rio decretou a falência da empresa, embora o Tribunal de Justiça do Rio tenha suspendido essa decisão, permitindo que a varejista permanecesse em recuperação judicial até um julgamento definitivo. Se a execução fiscal for mantida, os valores arrecadados no leilão serão direcionados aos cofres do estado, enquanto, em caso de falência consolidada, seguirão a ordem legal de credores, priorizando dívidas trabalhistas.
Memórias e Legado da Lojas Leader
Fundada em 1951 na cidade de Miracema, interior do Rio de Janeiro, a Leader Magazine se tornou uma rede de lojas de departamento muito querida, especialmente na região Sudeste do Brasil. Conhecida por suas vendas de roupas, calçados e itens para casa a preços acessíveis, a varejista conquistou um espaço significativo no cotidiano de milhões de brasileiros. As campanhas publicitárias, especialmente as natalinas, que repetiam o icônico jingle “Já é Natal na Leader”, conseguiram fixar a marca na memória coletiva do consumidor brasileiro.
No entanto, por trás dessa familiaridade, a empresa enfrentou um lento processo de declínio, que incluiu mudanças de controle, aumento da dívida e dificuldades operacionais. Nos últimos anos, a pressão do comércio eletrônico e os efeitos da pandemia contribuíram para o cenário adverso que culminou na atual situação da marca. O leilão de hoje representa não apenas uma tentativa de saldar dívidas, mas também um marco triste na história do varejo brasileiro.

