Uma Era de Vigilância e Conflitos
Durante os 21 anos da ditadura militar, Mato Grosso passou por um período repleto de vigilância política, expansão territorial acelerada e um cenário midiático majoritariamente favorável ao regime. O governo militar incentivou a colonização das áreas interiores e a abertura de estradas, o que, embora transformasse a economia local, custou diversas vidas e provocou conflitos sociais.
Relatórios de inteligência revelam a infiltração do Serviço Nacional de Informações (SNI) em universidades, enquanto projetos de ocupação territorial geravam tensão com posseiros e comunidades indígenas. O panorama político da época, entre 1964 e 1985, foi amplamente noticiado de forma positiva pela imprensa, que refletia os investimentos do regime que prometiam desenvolvimento regional.
O doutor em História e analista político Vinicius de Carvalho aponta que a experiência da ditadura em Mato Grosso tinha características únicas, em comparação com outros estados como São Paulo e Rio de Janeiro. “As marcas da repressão eram menos perceptíveis em grandes centros urbanos como Cuiabá e Rondonópolis, mas muito mais intensas no interior, especialmente nas áreas rurais”, destacou Carvalho em entrevista.
Estradas de Conflito e Mudanças
A presença do regime militar se fez mais forte a partir da década de 1970 com a implementação de programas de integração territorial na Amazônia. O Programa de Integração Nacional, por exemplo, promoveu grandes obras de infraestrutura. A abertura da BR-163, que conecta Mato Grosso ao norte do país, foi um marco nesse processo, mas trouxe consigo conflitos significativos.
“A BR-163 atravessava diversos territórios indígenas. Muitas comunidades foram deslocadas, obrigadas a se mudar para o Parque Nacional do Xingu. A situação era como entrar na casa de alguém e exigir que eles saíssem para a construção de uma estrada”, relatou Carvalho. Além das comunidades indígenas, pequenos agricultores e posseiros também sofreram com a política de colonização, que priorizava grandes projetos conduzidos por empresas privadas e órgãos governamentais.
A CODEMAT (Companhia de Desenvolvimento do Estado de Mato Grosso) participou ativamente da colonização de regiões como Juína, enquanto empresas privadas estabeleceram municípios que hoje são líderes no agronegócio, como Sinop e Alta Floresta. Carvalho enfatiza que este processo foi marcado por disputas violentas por terra, resultando na retirada de posseiros e na expropriação de terras.
Vigilância Universitária em Tempos de Repressão
Paralelamente às transformações territoriais, a ditadura militar mantinha uma vigilância rigorosa sobre potenciais focos de resistência política. Na cidade de Cuiabá, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) tornou-se um dos principais alvos. Criada em 1970 durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, a universidade era vigiada pelo SNI, que infiltrava agentes em reuniões de estudantes e professores.
“Existem relatos detalhados dessas reuniões. O SNI registrava quem falava, quem liderava e quais eram as discussões, quase como se fossem atas das assembleias”, explicou Carvalho. Naquele período, organizações estudantis e sindicatos eram proibidos, mas encontros informais continuavam a ser realizados, sempre sob a supervisão dos órgãos de inteligência.
Documentos do Arquivo Nacional também revelam que lideranças políticas eram monitoradas, como o deputado estadual Dante de Oliveira, citado em um relatório de segurança de 1982.
Oposição e a Imprensa Sob Controle
Apesar da linha editorial favorável ao regime nos jornais da época, havia vozes críticas. Pequenos jornais e setores da oposição utilizavam a Assembleia Legislativa como espaço de resistência. Figuras como Cecílio Gaeta e Carlos Bezerra se destacaram na contestação ao governo militar, com debates que, mesmo em uma minoria, provocavam tensões políticas.
Enquanto isso, a imprensa mato-grossense, como O Estado de Mato Grosso e Diário de Cuiabá, optava por não problematizar o contexto da ditadura, omitiu até mesmo a palavra “ditadura” em suas matérias. A percepção de que o regime trouxe investimentos significativos para o estado, como estradas e universidades, contribuía para uma avaliação positiva entre a população.
A transição para a democracia em 1982, simbolizada pela eleição do governador Júlio Campos, também evidenciou a influência das forças políticas que sustentaram o regime militar. Carvalho destaca que os efeitos daquela era ainda são visíveis na economia do estado, onde o crescimento e a configuração política contemporânea continuam a refletir as marcas da colonização e ocupação iniciadas durante a ditadura.

